Um levantamento internacional que cruzou bases de dados sobre comércio legal e apreensões de animais silvestres com registros de patógenos conclui que a circulação global de fauna está associada ao aumento do risco de doenças que passam de animais para pessoas. O estudo, publicado na revista Science, analisou cerca de quatro décadas de registros e identificou mais de 2.000 espécies de mamíferos envolvidas no comércio — aproximadamente um quarto das espécies conhecidas do grupo.

Os pesquisadores encontraram diferenças marcantes entre espécies comercializadas e não comercializadas: 41% das espécies incluídas no comércio hospedavam pelo menos um patógeno que infecta humanos, contra 6% entre as não comercializadas. Após ajustar para vieses de pesquisa científica e outros fatores, a conclusão manteve-se: espécies levantadas no mercado internacional têm maior probabilidade de abrigar agentes zoonóticos. Além disso, para cada dez anos em que uma espécie aparece nos registros de comércio (período avaliado entre 1980 e 2019), foi observado um patógeno adicional compartilhado com humanos.

Os autores destacam que mercados de animais vivos e o comércio ilegal parecem intensificar os riscos já inerentes à circulação de espécies. Doenças como Ebola e mpox, e suspeitas sobre a origem do SARS-CoV-2 em mercados de animais vivos, constam entre os contextos citados pelos pesquisadores como exemplos de 'spillover' — o salto de patógenos entre espécies. Pesquisadores também registraram o movimento contrário em alguns casos, quando humanos transmitiram patógenos a populações animais, como ocorreu com cervídeos e a Covid-19, mas a evidência indica que, no conjunto, o fluxo preocupa sobretudo pela transferência de animais para pessoas.

A pesquisa reforça a necessidade de políticas públicas mais firmes: controle e fiscalização de importações, combate ao tráfico, regulação de mercados e aprimoramento da vigilância sanitária internacional. Para além do custo evidente à saúde pública, surtos decorrentes do comércio de fauna impõem fardo econômico e institucional significativo. A constatação científica é clara: sem mudanças estruturais no modo como espécies silvestres são comercializadas, mercados e rotas ilegais seguirão criando oportunidades para novos surtos — e para o aumento de custos humanos e fiscais que governos terão de arcar.