O relatório da CPI do Crime Organizado, redigido pelo senador Alessandro Vieira (MDB‑SE), adota um recorte explícito: pede o indiciamento de três ministros do Supremo Tribunal Federal e do procurador‑geral da República, ao mesmo tempo em que não aponta, com nomes, os políticos e gestores públicos que, segundo as apurações, colocaram recursos no Banco Master ou participaram de tentativas de socorro com dinheiro público. A seletividade da narrativa e a escolha de alvos configuram um viés editorial do relatório que tem consequências políticas imediatas.
A página apontada no texto final, onde são citadas conexões do Master com instituições da República, exemplifica o problema. Funcionários do Banco Central aparecem identificados nominalmente como supostos receptores de suborno; o ministro Luiz Fux e outro integrante do Judiciário também são mencionados por nome; já quando o assunto é a atuação de governadores, prefeitos e outros agentes políticos, o relatório opta por descrições genéricas, sem a mesma exposição. Essa diferenciação reduz a percepção de responsabilização política e desloca o foco para o Judiciário.
A composição dos votos que aprovou o relatório amplia essa sensação de conflito de interesses. Parlamentares do MDB, PP, Novo e PL (com exceção do Novo, os demais partidos diretamente vinculados ao escopo do Master) sustentaram a aprovação. Entre os citados na cobertura constam nomes como Ciro Nogueira e Filipe Barros — ambos ligados a iniciativas para ampliar a cobertura do FGC em favor do banco —, além de governantes que utilizaram recursos públicos na tentativa de resgate: Ibaneis Rocha, cuja intervenção no Banco de Brasília gerou prejuízos estimados entre R$ 15 bilhões e R$ 18 bilhões, e Cláudio Castro, que destinou cerca de R$ 1 bilhão de fundos previdenciários ao Master.
Do outro lado, os votos contrários vieram de PT, PSD e PSB — partidos que também têm atores ligados ao caso, mas que, no jogo da votação, aparecem menos diretamente representados no texto final. No entendimento do articulador da crítica, essa escolha política do relator facilita uma narrativa que transforma a CPI em um instrumento para focalizar o desgaste no STF, enquanto reduz a visibilidade das responsabilidades políticas. O efeito prático é claro: ao concentrar acusações no Judiciário, o relatório abre espaço para que críticas anti‑STF ganhem tração pública e toquem interesses eleitorais e institucionais de diferentes alas políticas.
Não se trata de negar problemas no âmbito judicial; trata‑se de apontar uma lacuna investigativa. Se a CPI tivesse narrado com a mesma contundência os vínculos e decisões de agentes políticos e gestores locais, a recepção do relatório e sua legitimidade teriam sido distintas — argumento caro ao próprio crítico do documento. A opção pelo recorte adotado não é neutra: acende alerta sobre a instrumentalização política de investigações e sobre o custo político de um relatório que privilegia um alvo em detrimento de atores cuja atuação teve impacto fiscal e social concreto.