A última semana deixou mais visível aquilo que dados fechados vinham indicando: o bolsonarismo não funciona mais como bloco monolítico. Monitoramento da Palver em mais de 100 mil grupos públicos de WhatsApp mostra que as tensões internas — que, segundo a análise, existem há mais de um ano — saíram das entrelinhas para confrontos públicos. A ruptura de Nikolas Ferreira com o núcleo ideológico ligado à família Bolsonaro e a sequência de atritos envolvendo Eduardo Bolsonaro, aliados e influenciadores ampliaram o desgaste do campo e vêm redesenhando a disputa por autoridade entre seus quadros.
No centro da cena estão personagens com trajetórias distintas: Nikolas procura construir capital próprio e sofre forte rejeição dentro da própria direita; Flávio mantém uma posição ambivalente, com saldo de aprovação e rejeição praticamente empatados; e Romeu Zema surge com avaliação mais favorável nas conversas monitoradas. Episódios como disputas locais por candidaturas, críticas internas de aliados e a atuação de integrantes do núcleo dissidente mostram que a tutela política do sobrenome vem sendo questionada e que aliados operam com autonomia crescente.
Os números extraídos das conversas importam politicamente. Flávio aparece com cerca de 50% de aprovação e 50% de rejeição nas menções posicionadas — sinal de fragilidade que amplia a pressão sobre sua capacidade de liderança. Nikolas registra mais de 68% de rejeição nas mensagens, boa parte advinda do próprio campo conservador, o que revela que sua ascensão tem custo interno. Ao mesmo tempo, Zema alcança aproximadamente 53% de aprovação e vê o volume de menções se aproximar do do senador, confirmando uma trajetória de visibilidade que passa a ser tratada como alternativa viável por setores dissidentes.
Esse rearranjo acende um alerta para quem encara 2026 como ciclo decisivo. A dissidência tem uma oportunidade tática: apoiar pautas e candidaturas de Zema em pontos estratégicos sem romper formalmente com a família Bolsonaro, testando se uma direita conservadora e liberal pode se consolidar sem o sobrenome. Para Flávio e para o núcleo mais próximo, a dinâmica complica a narrativa oficial, amplia desgaste e obriga escolhas difíceis — acomodar dissidências, endurecer alinhamentos ou tentar recompor hegemonia. Politicamente, trata‑se de um momento de risco e de testes de viabilidade que podem redefinir alianças e estratégias até a próxima corrida eleitoral.