O novo filme de Gore Verbinski é um exercício de audácia narrativa. Em 134 minutos, Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra avança em ritmo febril sobre uma ideia de roteiro assinada por Matthew Robinson: um homem que diz vir do futuro reúne em uma lanchonete de Los Angeles seis desconhecidos e ameaça explodir-se para convencê-los a participar de uma missão que supostamente salvará o mundo. A promessa de imprevisibilidade é cumprida — a cada cena fica difícil antecipar a próxima.

O roteiro alterna a fuga noturna com flashbacks que explicam como cada personagem foi parar naquelas cadeiras da lanchonete. Essas histórias são um dos grandes trunfos do filme: criativas, cruéis e muitas vezes muito engraçadas, fornecem pistas e camadas que enriquecem a narrativa principal. Há, também, uma leitura social persistente — cenas que ridicularizam uma juventude hipnotizada por telas e algoritmos e a noção contemporânea de tecnologia como ameaça e salvação ao mesmo tempo. No caminho até a casa onde supostamente um garoto prodígio trabalha numa inteligência artificial perigosa, o grupo enfrenta adolescentes robotizados, bandidos e criaturas bizarras.

Do ponto de vista de elenco e direção, o acerto é claro. Sam Rockwell sustenta o filme com uma presença versátil, carregando a mistura de urgência e ironia que o roteiro pede. Juno Temple e Haley Lu Richardson contribuem com personagens memoráveis: Temple vive uma mulher que recorreu a um clone do filho perdido e Richardson interpreta uma atriz infantil com uma reação física extrema ao uso da internet por perto. Verbinski, longe de se tornar um autor excêntrico, mostra-se um artesão seguro, capaz de traduzir ideias visuais e tonalidades díspares — algo que o coloca acima de seus últimos fracassos comerciais e criativos.

Nem tudo funciona: o excesso de ideias e episódios poderosos faz com que o encerramento pareça menos convincente e, para parte do público, até abrupto ou divisivo. Ainda assim, o mérito de apresentar uma proposta tão inventiva e de manter a tensão durante todo o tempo supera a falha final. Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra é um filme raro: audacioso, às vezes desgovernado, mas quase sempre eletrizante — e obrigatório para quem busca cinema de gênero que arrisca mais do que repete fórmulas.