Chegou a Cannes 2025 com repercussão modesta, mas 'Caso 137' guarda méritos que justificam a escolha francesa para representar o país. Dominik Moll constrói um filme tenso e contido, que transforma uma investigação interna em suspense moral. A trama dialoga com a onda de produções que tratam da violência ligada à segurança pública na França —um tema que mantém relevância também para o Brasil.

O ponto de partida é direto: um jovem do subúrbio é gravemente ferido por uma bala de borracha durante uma manifestação dos Coletes Amarelos. A agente do IGPN, órgão equivalente à nossa corregedoria, interpretada por Léa Drucker, decide apurar o caso. A investigação enfrenta a tradicional resistência corporativa, desde colegas e instâncias internas até o ceticismo das próprias vítimas. É nesse atrito que o roteiro extrai seu vigor dramático.

O filme deve muito à presença da protagonista: Drucker domina a tela com interpretação contida e irretocável —merecidamente premiada com o César de melhor atriz— e carrega o público na busca pelas pistas. A direção de Moll mantém foco no mistério, evita excessos e privilegia um ritmo que valoriza pequenas revelações. Em termos de forma, 'Caso 137' funciona como um procedural enxuto e eficiente.

Mas é justamente nessa eficiência que mora o limite apontado por críticos como os da Cahiers du Cinéma. Moll prefere a atitude moral da investigadora à análise das raízes políticas e sociais que tornam a violência policial estrutural. Ao tratar a polícia quase como um ente à parte da vida política, o filme perde a oportunidade de aprofundar causas e consequências mais amplas —algo que obras contemporâneas sobre o tema já vêm explorando. Em resumo: 'Caso 137' é um suspense policial bem realizado, relevante na escala do debate público, mas insuficiente quando o objetivo é mapear o contexto que permite abusos de força.