A análise de arquivos extraídos da conta em nuvem do contador Rodrigo de Paula Morgado foi determinante para que a Polícia Federal abrisse uma nova frente de apuração sobre uma organização suspeita de lavar recursos provenientes de apostas ilegais. Obtidos com autorização judicial, os documentos permitiram aos investigadores mapear transferências entre pessoas e empresas e identificar uma engrenagem financeira que, segundo a decisão que autorizou a operação, atuava de forma independente dos núcleos já alvo das operações Narco Bet e Narco Vela.

Segundo a PF, Morgado — que se apresenta como especialista em redução de impostos — aparece nas mensagens e arquivos como operador financeiro do grupo, gerenciando repasses em nome de terceiros, estruturando proteção patrimonial e mecanismos para ocultar a origem dos recursos. A investigação aponta ainda uso de empresas, contas de terceiros, fragmentação de transferências e circulação por criptoativos, com movimentações em escala bilionária e atividade registrada até o segundo semestre de 2025.

Embora sejam essas figuras públicas [MCs e influenciadores] que chamem a atenção de vocês [imprensa], a gente queria o contador. É através da quebra [de sigilo] dessas engrenagens centrais do sistema que a gente consegue identificar pra onde tá indo o dinheiro. E a nuvem dele foi fundamental nesse sentido.

A Justiça Federal autorizou buscas e apreensões, bloqueio de bens, quebras de sigilo telemático e prisões temporárias de investigados. Em coletiva, o delegado Marcelo Maceiras resumiu a estratégia dos investigadores: "Embora sejam essas figuras públicas [MCs e influenciadores] que chamem a atenção de vocês [imprensa], a gente queria o contador. É através da quebra [de sigilo] dessas engrenagens centrais do sistema que a gente consegue identificar pra onde tá indo o dinheiro. E a nuvem dele foi fundamental nesse sentido."

A defesa, por meio do advogado Felipe Pires de Campos, afirmou que Morgado atua "estritamente dentro dos limites legais" e que não teve acesso aos autos sigilosos, mas promete apresentar documentos para comprovar a inocência. A apreensão do foco pelo lado técnico-financeiro da operação expõe como escritórios e operadores contábeis podem ser o elo frágil na blindagem de esquemas complexos — e indica que a investigação seguirá mirando estruturas e fluxos, e não apenas as figuras públicas que capturam a atenção midiática.