O pediatra e sanitarista Daniel Becker lança 'Os 1000 Dias do Bebê' (Planeta), obra em que propõe tratar crianças como sujeitos de direito e destaca a importância decisiva do período que vai da concepção até cerca dos dois anos. Escrito com a jornalista Rita Lisauskas, o livro se apresenta como um guia enciclopédico —os autores evitam chamar a obra de manual— e busca atualizar pais e cuidadores com a ciência mais recente em pediatria, nutrição e desenvolvimento emocional.
Becker faz alerta para a perda das referências geracionais e para o papel nocivo das redes sociais, onde cai uma mistura de conselhos desencontrados e produtos milagrosos. Ele relata ter sido alvo de uso indevido de imagem por meio de vídeo feito com inteligência artificial para promover métodos falsos —caso que resultou em processo favorável ao médico— e critica a mercantilização de soluções rápidas para problemas comuns da infância.
Um capítulo extenso é dedicado às birras: para Becker, elas revelam o surgimento da autonomia entre um e dois anos e exigem reconhecimento e nomeação do sentimento, não punição. Lidar corretamente com as crises, diz ele, não apenas evita traumas, mas é oportunidade para desenvolver inteligência emocional. Entre os principais erros apontados pelo autor estão práticas violentas —gritos, castigos e palmadas— que persistem apesar das evidências contra seus efeitos.
O livro também registra as mudanças recentes na pediatria —novas vacinas, incorporações ao SUS e avanço em políticas como a licença-paternidade— e reflete o cuidado dos autores em incorporar atualizações científicas: foram cerca de mil dias entre a concepção da obra e sua publicação. A proposta é oferecer orientação baseada em evidências, sem determinismos, lembrando que a infância é influenciada por múltiplos fatores sociais e familiares.