A dez dias do primeiro turno, o levantamento mais recente do Datafolha mostra Lula com quatro pontos de vantagem sobre Flávio Bolsonaro —uma distância que contrasta com os 14 pontos que o presidente tinha sobre Jair Bolsonaro no mesmo período de 2022. A diferença nas pesquisas, com margem de erro de dois pontos percentuais em ambos os levantamentos, sinaliza redução clara do espaço de manobra do incumbente às vésperas da votação.
A comparação com 2022 revela deslocamentos relevantes nas bases eleitorais. Entre quem ganha até dois salários mínimos, Lula caiu de 57% para 46%, enquanto Flávio sobe em relação ao antecessor (hoje marca 32%). Na faixa de 2 a 5 salários mínimos, o presidente também perdeu intensidade: tinha 36% há quatro anos e agora aparece com 33%, diante de 41% de Flávio. Entre o eleitorado feminino houve recuo de 49% para 42% nas intenções por Lula; Flávio aparece com 33% nesse segmento. Esses movimentos mostram perda de afinidade em grupos centrais à vitória em primeiro turno.
O ambiente lembra 2018, quando crises como a Lava Jato e o impeachment de Dilma abriram espaço para candidaturas disruptivas. A crise do STF, hoje, cumpre papel parecido. — Renato Dorgan Filho
A fotografia de rejeição também mudou: o índice de eleitores que dizem não votar de jeito nenhum em Lula subiu de 39% em 2022 para 45% agora —o mesmo patamar de rejeição de Flávio. O quadro indica, na prática, margem estreita para consolidação de vitória antecipada e amplia o risco de a disputa ser decidida no segundo turno, cenário que especialistas já apontam como mais provável do que um desfecho na primeira votação.
No plano estratégico, o diagnóstico do próprio campo petista parece refletir essa realidade: cresce o apelo por voto útil entre eleitores de candidaturas de esquerda menores, numa tentativa de concentrar apoio e evitar esvaziamento no confronto direto com o bolsonarismo. A memorização do que ocorreu em 2022 —quando Lula tinha larga vantagem nas pesquisas a dez dias, mas a eleição foi ao segundo turno e terminou apertada— funciona como referência e alerta para ajustes táticos no horário final de campanha.
A pesquisa, portanto, não inaugura reversão, mas evidencia desgaste e obriga mudanças de ritmo e mensagem. Com pouca chance de virada definitiva antes das urnas, o principal efeito imediato é político: a campanha governista precisa reduzir rejeição e recuperar terreno na classe média e entre mulheres, ou conviver com a perspectiva de uma disputa intensa no segundo turno, com custos políticos e institucionais elevados.