O levantamento do Datafolha divulgado em junho revela uma sobreposição ideológica que complica a narrativa de ambos os polos principais do debate político. Entre os entrevistados que declaravam voto em Lula, 24% foram classificados à direita ou centro‑direita; entre os que diziam votar em Flávio Bolsonaro, 19% aparecem à esquerda ou centro‑esquerda. A descoberta sinaliza uma base eleitoral menos homogênea do que a percepção pública costuma supor e levanta desafios estratégicos para campanhas e governos.
A classificação do instituto não é autodeclaração do eleitor, mas resultado de uma matriz com 16 perguntas sobre comportamento e economia — dez sobre valores comportamentais (pobreza, criminalidade, homossexualidade, crença em Deus, sindicatos, punição de adolescentes) e seis sobre opinião econômica (impostos, papel do Estado, benefícios, leis trabalhistas, investimentos). Com peso igual para comportamento e economia, o Datafolha posiciona os respondentes em cinco faixas: direita, centro‑direita, centro, centro‑esquerda e esquerda. A pesquisa ouviu 2.004 eleitores presencialmente em 17 e 18 de junho, com margem de erro de até 2 pontos percentuais; o levantamento está registrado no TSE (BR‑09956/2026).
O recorte revela contradições concretas. Por exemplo, 34% dos eleitores de Flávio dizem que a posse de armas deveria ser proibida por representar ameaça à vida — um posicionamento que contraria uma das bandeiras centrais do pré‑candidato do PL. Do outro lado, 26% dos eleitores de Lula avaliam que as leis trabalhistas mais atrapalham do que protegem trabalhadores, em um momento em que o Planalto aposta na defesa do fim da escala 6x1 como argumento político. São sinais claros de que adesão a candidaturas não se traduz em concordância plena com posições programáticas.
Além das contradições pontuais, há itens de convergência que pesam na disputa: maioria tanto entre os eleitores de Lula (61%) quanto de Flávio (81%) defende que adolescentes que cometem infrações sejam punidos como adultos, e cerca de sete em cada dez em ambos os grupos avaliam que o Estado tem dever de ajudar grandes empresas em risco de falência. Esses pontos comuns podem reduzir o espaço de diferenciação e forçar campanhas a disputar nuances, mais do que blocos ideológicos claros.
Politicamente, o diagnóstico do Datafolha acende um alerta: mensagens homogêneas e slogans de campanha correm o risco de não ressoar com parcelas relevantes da base declarada. Para o governo, a presença de eleitores de esquerda que têm visões econômicas mais alinhadas ao mercado exige cuidados na formulação de propostas; para a oposição, a existência de eleitores de direita com atitudes mais moderadas sobre pautas sociais impõe limites à radicalização. Em suma, o mapa mostra um eleitorado fluido, cuja gestão exige mais segmentação, pragmatismo e capacidade de persuadir além da retórica de base.