A menos de dois meses para a abertura da Copa do Mundo de 2026, uma pesquisa do Datafolha revela um dado desconfortável para a seleção brasileira: apenas 29% dos brasileiros acreditam que o país será campeão. É o menor índice desde o início da série histórica, em 1994, e um sinal claro de perda de centralidade do Brasil como favorito. No levantamento, a soma das citações aos principais rivais (34%) já supera o apoio à própria seleção, com a França surgindo como principal alternativa (17%).

O recorte técnico confirma a amplitude do desgaste. Foram ouvidas 2.004 pessoas em 137 municípios entre 7 e 9 de abril de 2026, com margem de erro de dois pontos. Além do recuo no otimismo, 46% dos entrevistados acreditam que o Brasil não avançará além das quartas de final — fase em que a equipe foi eliminada nas últimas duas edições. Entre gêneros e recortes eleitorais há variações: 36% dos eleitores que dizem apoiar a reeleição de Lula confiam no título, contra 26% entre os eleitores de Bolsonaro, mas as diferenças caem dentro da margem de erro em alguns recortes.

O diagnóstico esportivo e institucional ajuda a explicar os números. Desde a chegada de Carlo Ancelotti houve ganhos de estabilização — classificação assegurada e definição de um núcleo de convocáveis —, mas a seleção não recuperou uma identidade clara de jogo. Amistosos recentes, com derrota por 2 a 1 para a França mesmo com um atleta a mais e vitória por 3 a 1 sobre a Croácia, expuseram inconsistências em momentos decisivos. Paralelamente, o desgaste da CBF como instituição contribui para a quebra da aura de invencibilidade que o torcedor esperava.

Do ponto de vista político e de gestão, o resultado do Datafolha acende alerta: a menor confiança histórica aumenta a pressão sobre Ancelotti e sobre a administração da CBF, exige respostas concretas antes da convocação final e complica a narrativa oficial de favorito. Para o torcedor e para o mercado político do futebol, trata‑se de um retrato do momento, não de uma sentença definitiva — mas indica que a equipe precisa transformar estabilização em identidade e resultados para reconquistar a confiança perdida.