A mais recente pesquisa do Datafolha, divulgada na quinta (3), indica que o efeito inicial do escândalo conhecido como 'Dark Horse' sobre a campanha de Flávio Bolsonaro começou a se diluir. Após a repercussão do pedido de recursos ao dono do Banco Master, parte dos eleitores antipetistas que haviam vacilado retornou ao núcleo bolsonarista, reduzindo a turbulência que havia mexido com as intenções de voto. O levantamento mostra que a disputa entre Lula e Flávio tende a voltar aos níveis pré-escândalo, mas o quadro permanece instável diante de novas delações e potenciais desdobramentos.
Uma leitura política desse recuo expõe consequências práticas. A recuperação de Flávio aparece particularmente entre eleitores com ensino superior — patamar em que voltou a 37% — e em regiões como o Sul, onde subiu para 44% após queda momentânea. Ainda assim, o senador não reconquistou integralmente o eleitorado masculino que favoreceu o bolsonarismo nas eleições anteriores: Lula marca 38% entre homens contra 36% de Flávio. Esses movimentos representam uma recomposição parcial, não uma normalização definitiva, o que mantém a campanha vulnerável a novos choques.
Paralelamente, o fenômeno mais novo e politicamente relevante é o avanço do escritor Augusto Cury (Avante). O crescimento de Cury concentra-se num eleitorado mais escolarizado e de renda mais alta — 14% entre quem tem curso superior e 11% entre quem ganha mais de cinco salários mínimos — e transforma o jogo em duas frentes: impede a vitória de Lula no primeiro turno e fragmenta o voto de eleitores não alinhados nem ao lulismo nem ao bolsonarismo. Na prática, Cury ocupa o espaço do eleitor pendular, tornando mais difícil para os dois líderes ampliarem suas bases sem converter apoiadores do terceiro colocado.
O cenário é agravado pela piora na avaliação do governo Lula nesse terceiro mandato: o presidente alcança seu pior índice de aprovação pouco antes do primeiro turno, reflexo, segundo seu comitê, do desconforto com poder de compra, mesmo diante de inflação estável e sinais de emprego aquecido. Do ponto de vista estratégico, os números do Datafolha acendem alerta para a campanha petista e ampliam o desafio governista de transformar medidas de apelo popular em recuperação de imagem. Para a oposição, a oscilação e a entrada firme de Cury exigem ajustes nas táticas de atração de eleitores independentes — e mantêm a eleição em aberto.