A pesquisa Datafolha divulgada na quinta (17) revela um eleitorado mais estável do que aparenta ser nas manchetes: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva soma 39% das intenções e o senador Flávio Bolsonaro, 36%, repetindo um empate técnico que já vinha se consolidando. O principal sinal político do levantamento não é apenas a proximidade entre os dois, mas a resistência do voto diante de fatos que, em teoria, poderiam deslocar eleitores.
Escândalos como os desdobramentos em torno do Banco Master e medidas de caráter populista — que o levantamento associa a cerca de R$ 200 bilhões em ações implementadas no ano, incluindo tentativa de segurar combustíveis e reajuste do Bolsa Família — parecem provocar efeitos pontuais, quando ocorrem, e logo perdem intensidade nas intenções de voto. Augusto Cury, que teve pico de crescimento recente, recuou para 6%; outros postulantes permanecem em patamares baixos.
Essa rigidez do eleitorado alimenta estratégias pragmáticas: ambos os comitês aceleraram apelos ao voto útil com a esperança de encerrar a disputa já no primeiro turno. Para o comando petista, a operação faz sentido diante das simulações de segundo turno: Lula tem 46% contra 44% de Flávio; empata em 44% com Cury e tem 46% contra 42% de Caiado. Em suma, metade do eleitorado segue posicionada contra o presidente, sinal que reduz margem de conforto.
O caso do diálogo entre Flávio e o empresário Daniel Vorcaro provocou uma queda perceptível nas intenções de voto do candidato bolsonarista, mas o recuo foi temporário. A investigação e a repercussão deslocaram parte do foco para o Supremo e para o ministro Alexandre de Moraes, o que ajudou a diluir o impacto político sobre Flávio. O episódio ilustra outro traço do atual quadro: fatos relevantes são filtrados pela predisposição eleitoral, e não o contrário.
Da perspectiva da política e da economia, o quadro acende alerta para os dois lados. Para o governo, a consolidação das preferências reduz o efeito imediato de medidas fiscais e aumenta o custo político de novas despesas; para a oposição, a cristalização impõe limitação ao ganho de terreno por escândalos. Em uma disputa tão apertada, pequenas variações nos últimos dias de campanha — reações a denúncias, impacto emocional de mensagens ou mudanças táticas — podem ser decisivas. O retrato do Datafolha é uma fotografia do momento: não garante desfecho, mas complica a narrativa de quem aposta em movimentos bruscos para mudar o jogo.