A pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta-feira confirma o empate técnico no segundo turno entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL): 50% a 50% dos votos válidos. O levantamento, encomendado pela Folha e pela TV Globo e registrado no TSE sob o número BR-09709/2026, ouviu 2.520 eleitores entre 20 e 22 de outubro. A margem de erro para a amostra global é de dois pontos percentuais, e os percentuais referem-se a votos válidos — ou seja, excluem brancos, nulos e indecisos.
Os recortes sociodemográficos deixam claro que o empate nacional esconde duas frentes eleitorais bem distintas. Lula aparece na frente entre mulheres (53% a 47%), eleitores com renda até dois salários mínimos (58% a 42%) e no Nordeste (68% a 32%), além de liderar entre autodeclarados pretos (61% a 39%). Já Flávio tem vantagem entre homens (54% a 46%), eleitores com ensino superior (54% a 46%), quem ganha acima de cinco salários (58% a 42%) e entre brancos (55% a 45%). Entre evangélicos, o senador mantém vantagem folgada, com 73% contra 27% de Lula. Em muitos desses recortes as diferenças superam a margem de erro, tornando as lideranças estatisticamente relevantes.
O levantamento também mostra que Flávio é mais competitivo entre eleitores não alinhados, segmento em que aparece com 56% a 44% — resultado que, embora tenha margem de erro mais ampla naquele recorte, aponta uma capacidade de atrair eleitores fora do núcleo bolsonarista e petista. Por outro lado, a consolidação de Lula entre os segmentos mais pobres, no Nordeste e entre pretos indica que sua base clássica segue sólida. Esses padrões acendem alerta para ambos: Lula precisa recuperar terreno entre homens, classes médias e eleitores de ensino superior; Flávio precisa reduzir a distorção no Nordeste e ampliar apelo entre pobres e negros.
Politicamente, a pesquisa complica a narrativa de ambos os lados. Para o governo, o empate reforça a urgência de operações de mobilização e de persuasão específicas — não basta manter a fortaleza no Nordeste; é preciso disputar votos em centros urbanos e entre classes médias. Para Flávio, o desafio é transformar as vantagens em segmentos (evangélicos, renda mais alta, brancos) em votos suficientes em regiões onde está enfraquecido. A pesquisa acende alerta sobre a geografia do voto e sugere que a eleição poderá ser decidida por estratégias de comparecimento às urnas e por quem melhor traduzir mensagens para os recortes ainda contestados.
Em termos práticos, os dados elevam a aposta em táticas segmentadas: foco em mobilização das mulheres e periféricos para Lula; reforço da cadeia de influência religiosa e econômica para Flávio. A igualdade numérica nacional exige que as campanhas não confundam empate com tranquilidade — trata-se, antes, de um sinal de que pequenas oscilações de campanha, turnos de debates, adesões ou fraturas em alianças podem ter efeito decisivo. O Datafolha serve como retrato do momento, não como previsão final, mas os números já alteram o mapa de prioridades estratégicas para as semanas finais.