Pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta-feira mostra que, entre quem afirma receber o Bolsa Família ou morar com beneficiários, 53% declarariam votar em Lula no primeiro turno, contra 28% que apontaram Flávio Bolsonaro (PL). No grupo que não é diretamente alcançado pelo programa, a preferência por Lula cai para 36%, enquanto Flávio tem 37%. O levantamento, presencial, ouviu 2.001 pessoas em 125 municípios; 20% dos entrevistados disseram ter vínculo com o benefício. A margem de erro é de dois pontos no total e sobe para cinco pontos no segmento dos beneficiários.
Os números em cenário de segundo turno também mostram vantagem do petista entre beneficiários: 60% a 33%. No retrato nacional do Datafolha para o segundo turno, porém, os dois adversários aparecem tecnicamente empatados — 46% para Lula e 44% para Flávio. Importante: a maior parte das entrevistas foi feita entre terça (15) e quinta (17) e antecedeu o anúncio do reajuste do programa, divulgado na manhã de quinta. O governo informou aumento de 15,04%, elevando o repasse mínimo de R$ 600 para R$ 691, com pagamento previsto a partir de 19 de outubro — menos de uma semana antes do segundo turno, marcado para 25 de outubro.
A coincidência entre pesquisa e anúncio político é central para a análise: como a maior parte do levantamento foi feita antes do comunicado, o efeito eleitoral do reajuste ainda não está refletido nos números. A medida, que o Executivo não reajustava desde a reformulação de 2023, tem custo estimado em R$ 5,8 bilhões neste ano e R$ 22,7 bilhões por ano em 2027 e 2028. A mudança de postura do governo — depois de ministros e técnicos considerarem aumento desnecessário — aparece no mesmo momento em que a candidatura rival ganha espaço, sinalizando uma resposta à dinâmica da disputa.
Do ponto de vista político e fiscal, a operação tem impactos claros: pesquisa acende alerta para a estratégia da campanha e complica a narrativa oficial sobre restrições orçamentárias. A comparação com 2022 é óbvia: aumentos próximos da eleição reacendem suspeitas de uso eleitoral de benefícios, e tornam mais difícil justificar tecnicamente a decisão perante mercados e interlocutores da área econômica. A pressão sobre a equipe fiscal tende a crescer na avaliação pública e entre especialistas, que já questionavam a necessidade do reajuste.
O resultado do Datafolha precisa ser lido como fotografia de um momento sensível — não uma previsão definitiva. Para o governo, o desafio será transformar o ajuste em ganho político sem aprofundar custos fiscais nem abrir precedentes que pressionem o orçamento futuro; para a oposição, a tarefa será capitalizar a percepção de desgaste ou, ao contrário, neutralizar a medida. Novos levantamentos após o início dos pagamentos serão determinantes para medir o impacto real do aumento sobre as intenções de voto.