A nova pesquisa do Datafolha confirma que, por ora, Lula atravessa sem desgaste óbvio o episódio envolvendo o Supremo Tribunal Federal. Ainda que a crise no STF tenha dominado o noticiário, os números mostram sustentação da avaliação positiva do governo e resistência do eleitorado petista em linhas gerais. Ao mesmo tempo, a leitura detalhada dos recortes coloca uma sinalização de risco: em grupos que foram pilares da vitória de 2022, o desempenho do presidente está abaixo daquele patamar, o que exige reação tática imediata.

O que acende alerta para a campanha de Lula é a queda relativa em segmentos decisivos. No Nordeste, o presidente aparece seis pontos abaixo do nível observado em setembro de 2022; entre eleitores com renda inferior a dois salários mínimos, a diferença é de cinco pontos. Considerando a intensidade dessas bases no mapa eleitoral, a perda de penetração nessas faixas pode se traduzir em um déficit significativo de votos — uma lacuna que o ajuste do Bolsa Família tenta cobrir, mais como medida de contenção do que de expansão do eleitorado.

O anúncio do reajuste do Bolsa Família chega a poucas semanas do primeiro turno e tem caráter estratégico: recuperar o teto de apoio de 2022 em segmentos de baixa renda e beneficiários do programa. A medida reduz o espaço de deterioração, mas também revela o limite do crescimento adicional para Lula — sua margem de avanço depende mais de reaproximação com eleitores tradicionais do que de conquista de novos nichos. Politicamente, a iniciativa sinaliza reconhecimento de desgaste e uma tentativa de fechamento de filas antes da reta final.

Do outro lado, a campanha de Flávio Bolsonaro mostra uma curva de recuperação que já o coloca em sua melhor fase pós‑escândalo 'Dark Horse'. Em comparação com o piso registrado após a revelação do episódio, há recuperação numérica em recortes importantes: no agregado do primeiro turno saiu de 31% para 36%; no Sudeste subiu de 32% para 37%; entre a classe média foi de 35% para 41%; e entre evangélicos atingiu 48%. Esses movimentos não significam consolidação definitiva, mas indicam que o senador digeriu o impacto e reconquistou espaço em eleitorados estratégicos para o bolsonarismo.

O resultado é um cenário de equilíbrio tenso: ambos os lados trabalham para neutralizar vulnerabilidades. Para Lula, a urgência é recompor a base social que o elegeu; para Flávio, é transformar a retomada em crescimento sustentado além dos nichos já identificados. A disputa permanece aberta, com votos ainda represados em candidaturas menores e eleitores passíveis de mudança. Politicamente, o levantamento amplia a pressão sobre a campanha governista para converter medidas sociais em recuperação efetiva, enquanto empurra a oposição a buscar uma narrativa competitiva que ultrapasse o texto da polarização.