A última pesquisa Datafolha, divulgada na quinta-feira (17), reacendeu a batalha do voto útil na campanha para a Presidência. O levantamento aponta Lula com 39% das intenções no primeiro turno, contra 36% de Flávio Bolsonaro; na simulação de segundo turno, 46% a 44%, empate técnico dentro da margem de erro de dois pontos. O quadro empurra as duas campanhas a tentar liquidar a fatura em 4 de outubro, transformando incerteza em urgência.

A mecânica do voto útil é conhecida: convencer eleitores de candidaturas menores a migrar seu voto diante da percepção de que seu preferido tem pouca chance. No radar de Flávio estão eleitores de Augusto Cury, Ronaldo Caiado, Renan Santos e Romeu Zema — nomes que, juntos, somam cerca de 15% nas simulações. Cury, isolado em terceiro com 6%, também é alvo de apelos do lado petista, porque parte de seu eleitorado admite avaliar Lula no segundo turno.

A estratégia tem duas travas práticas. A primeira é persuasiva: é preciso provar aos eleitores que o candidato é, de fato, o mais competitivo — daí a campanha do sentimento de vitória que ambos procuram alimentar. A segunda é política: ações explícitas de desmobilização de rivais de centro-direita podem melindrar apoios úteis esperados para um eventual segundo turno, risco que assessores das duas chapas reconhecem.

No plano tático, a campanha de Flávio intensificou jingles, mensagens em redes sociais e recados em listas de WhatsApp com o apelo direto para resolver no primeiro turno. Do lado do PT, a leitura é de que a liderança nas intenções e no chamado “sentimento de vitória” resiste, inclusive após episódios recentes envolvendo o Judiciário. O comentário oficial, por meio do ministro José Guimarães, trata a estabilidade das intenções como sinal de confiança e disposição para ampliar mobilização nas ruas e nas redes.

Politicamente, o empate técnico é um aviso: nenhuma das campanhas pode se dar ao luxo de subestimar a fluidez do eleitorado. Para Lula, o desafio é reduzir a margem residual de expansão de Flávio diante de eleitores de direita; para o senador, a meta é concentrar rapidamente votos dispersos sem que isso fragilize possibilidades de costura em caso de segundo turno. Em ambos os casos, a batalha do voto útil pode alterar alianças, influenciar debates e acelerar gastos de campanha num momento em que cada ponto percentual tem peso estratégico.

Em termos eleitorais, a pesquisa funciona como um retrato que exige reação imediata. A disputa aponta para uma reta final tensa: mais agressividade no convencimento, mais tentativa de moldar narrativas sobre quem “vai ganhar” e risco aumentado de desgaste caso a estratégia de atrair eleitores de terceiros não funcione. Resta ver se o apelo ao voto útil converte intenção em voto real ou apenas endurece as posições sem resolver o impasse antes do segundo turno.