A nova pesquisa do Datafolha redesenha uma corrida presidencial mais competitiva do que o esperado para o início da campanha: a vantagem de Lula sobre Flávio Bolsonaro caiu de dez para seis pontos nos últimos dois meses, e o petista segue abaixo da casa dos 40%. O recuo ocorre num momento em que a máquina do governo tentou converter medidas e benefícios em melhora de avaliação, sem, contudo, promover uma reversão significativa do humor do eleitor.

O ponto mais sensível do levantamento é a piora na avaliação do governo: passou de 38% para 41% de avaliação negativa desde a pesquisa anterior. Três segmentos explicam esse movimento. Entre eleitores de classe média (renda de dois a cinco salários mínimos) a avaliação ruim ou péssima chegou a 50%, o pior índice desde fevereiro de 2025. Nas regiões metropolitanas e periferias, o indicador subiu de 35% para 41%. E, talvez mais crítico para a corrida, eleitores que se declaram não alinhados — 24% da amostra, mais jovens e escolarizados — viram a avaliação negativa saltar de 36% para 46%. Esses resultados acendem alerta sobre a capacidade da campanha governista de ampliar além de sua base tradicional.

Os eleitores não alinhados voltam a aparecer como o grupo decisivo. Eles são voláteis: 49% dizem não ter decisão definida, ante 27% no eleitorado geral. No segundo turno, as simulações oscilam com Flávio liderando entre esse segmento por 38% a 33% contra Lula, enquanto 26% preferem anular. Também é nesse grupo que Lula registra rejeição mais alta (52% contra 44% de Flávio). O quadro reforça a ideia de que a eleição se jogará em margens estreitas e que ambos os campos têm pouco espaço para erro estratégico.

A pesquisa também aponta fragilidades distintas para cada campanha. Entre os eleitores de Flávio, 56% afirmam votar por considerarem suas propostas melhores ou por vê-lo mais preparado, mas 35% indicam que a escolha é para evitar a vitória de um adversário — um sinal de que parte do apoio é motivado por rejeição a outros nomes e, portanto, menos sólido diante de crises. O escândalo apelidado de “Dark Horse” ilustra esse risco: o bolsonarismo precisa demonstrar que sua candidatura tem conteúdo próprio além do sobrenome. Por sua vez, o governo terá de converter ações administrativas em imagens positivas nas grandes cidades e na classe média, além de se desvincular dos efeitos políticos das investigações envolvendo Lulinha. Em suma, o Datafolha não entrega um veredito final, mas amplia o desgaste político para o governo e complica a narrativa de fácil reeleição — um quadro que tende a pressionar estratégias, alianças e a intensidade das campanhas na reta para 2026.