A nova pesquisa do Datafolha revela um movimento simultâneo no eleitorado rumo a Lula (PT) e a Flávio Bolsonaro (PL) nos dias que antecedem a votação. Ambos registraram ganhos modestos — dois pontos na amostra —, resultado de estímulos distintos acionados pelas campanhas: a capacidade de mobilização do governo, apelos de identidade religiosa e a evocação da memória eleitoral de 2022. Apesar das variações, a distância entre os dois permanece praticamente inalterada, o que transforma esses avanços em sinais relevantes, porém frágeis.
No caso do ex-presidente, a oscilação positiva não é dispersa: concentra-se entre eleitores de baixa renda, no Sudeste e em quem avalia o governo como regular. Medidas de efeito imediato — como o reajuste do Bolsa-Família e políticas com impacto visível na vida cotidiana, além de iniciativas legislativas de grande repercussão — parecem ter ajudado a mover esses ponteiros. A pesquisa também indica uma guinada religiosa: o episódio em torno de Nossa Senhora ampliou apoio entre católicos, com um ganho reportado de cinco pontos nessa fatia do eleitorado. Ainda assim, trata-se de uma aderência recente, mais suscetível à reversão do que uma fidelização construída ao longo de meses.
Do outro lado, Flávio Bolsonaro obteve reforço semelhante entre evangélicos, também na ordem de cinco pontos, reforçando um padrão já conhecido do bolsonarismo. O avanço consolida a base religiosa do candidato e melhora seu desempenho em nichos estratégicos, mas não há indicação de que isso tenha diluído obstáculos maiores fora desse universo. Em conjunto, os resultados mostram um realinhamento parcial de eleitores que, em 2022, dividiram seu voto entre alternativas ou indecisão e agora retornam aos dois polos principais da disputa.
Politicamente, a pesquisa acende alerta para as duas campanhas: pequenos ganhos de última hora exigem conversão em comparecimento às urnas e ampliação do alcance além dos segmentos já afinados. Para o governo, o uso da máquina e medidas de curto prazo reduzem a margem de erro, mas não entregam automaticamente uma narrativa de vitória consolidada. Para a oposição, o reforço entre evangélicos reafirma coesão do eleitorado bolsonarista sem, contudo, alterar a competição nacional. A convergência de parte do eleitorado em direção aos protagonistas da eleição tende a restringir espaço para candidaturas alternativas e aumenta a polarização — num cenário em que a disputa continuará dependente de mobilização, logística e da capacidade de transformar sinais estatísticos em votos efetivos.