A última pesquisa do Datafolha, divulgada na reta final da campanha, redesenha o cenário eleitoral ao confirmar um empate técnico entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). O levantamento acende alerta para a campanha petista: medidas e anúncios do governo produziram efeitos mais modestos do que o esperado e não foram suficientes para ampliar de forma consistente a margem de conforto do presidente rumo ao 1º turno.
O que se vê, na prática, é uma onda de Flávio que se consolida em recortes estratégicos do eleitorado. Em cerca de dez dias o senador avançou de forma consistente em segmentos que o bolsonarismo considera sensíveis — classe média, Sudeste, homens e evangélicos — e também registrou ganho entre eleitores que se definem como bolsonaristas (subindo de 80% para 86%). Outro indicador da consolidação é o aumento do reconhecimento do seu número, de 79% para 91% no mesmo intervalo, sinal tradicional de comprometimento do voto.
Para o campo petista, o problema é mais estrutural. Lula enfrenta um teto de votos rebaixado em comparação com 2022 e voltou a estacionar entre eleitores de baixa renda — justamente o segmento que historicamente sustenta a base do PT. A dificuldade em reproduzir nalguns grupos os percentuais que garantiram sua vitória anterior expõe fragilidades na estratégia de expansão do eleitorado e aumenta a pressão por uma reação rápida e focada na mobilização do núcleo duro.
Além disso, a pesquisa revela um estoque significativo de indecisão: 11% dos eleitores, na espontânea, dizem não saber em quem votar, e 13% afirmam que podem mudar o voto até domingo. A volatilidade é ainda maior entre eleitores de candidaturas menores — cerca de 40% entre os apoiadores de Ronaldo Caiado, Augusto Cury e Renan Santos — o que mantém aberta a possibilidade de surpresas nas horas finais, mesmo com a curva de Flávio apontando para cima.
O quadro tem consequências políticas claras: o avanço bolsonarista complica a narrativa oficial de uma reeleição assegurada no 1º turno e amplia o desgaste político do campo governista, que precisará escolher entre arriscar mudanças táticas de última hora ou reforçar a mobilização tradicional nas bases. Ao mesmo tempo, a margem de indecisos e a volatilidade em nichos significativos deixam claro que a disputa ainda não está definida — mas, nas últimas ondas captadas pelo Datafolha, a dinâmica favorece a pressão sobre o projeto petista.