Pesquisa Datafolha realizada entre 7 e 9 de abril com 2.004 entrevistados em 137 municípios (registro TSE BR-03770/2026; margem de erro de 2 pontos) aponta que 75% dos brasileiros entendem que os ministros do Supremo Tribunal Federal têm poder demais. Ao mesmo tempo, 71% afirmam que a corte é essencial para proteger a democracia. O levantamento revela ainda que 75% acreditam que, hoje, as pessoas confiam menos no STF do que no passado —um dado que sintetiza perda de legitimidade e abre espaço para debates sobre limites e transparência do Judiciário.

O recorte por voto mostra a direção do desgaste: entre declarados eleitores de Jair Bolsonaro em 2022, 88% dizem que o STF tem poder excessivo; entre os que apontam ter votado em Lula, o índice é menor, mas ainda relevante, em 64%. Na questão da importância institucional, 84% dos eleitores de Lula veem o tribunal como essencial, contra 60% entre os de Bolsonaro; eleitores que disseram votar branco, nulo ou nenhum registram 67% e 73% nas duas perguntas, respectivamente. Esses números expõem uma contradição política: há uma percepção ampla de excesso de poder, mas também reconhecimento generalizado do papel institucional da corte —situação que complica a narrativa governista e acende um alerta para a estabilidade institucional.

O resultado chega em momento sensível. Desde o mensalão, passando pela Lava Jato, pelo rito do impeachment, pela anulação de condenações e pelos episódios do 8 de janeiro, o STF tornou-se ator central na política brasileira. Ao desgaste institucional atual somam‑se suspeitas envolvendo ministros em negócios privados (casos associados a Daniel Vorcaro e ao Banco Master) e medidas controvertidas como o inquérito das fake news. A conjunção de desgaste, controvérsia e polarização eleitoral reforça a cobrança por um código de ética —proposto pelo presidente do STF, Edson Fachin— e por regras mais estritas sobre decisões monocráticas, bandeiras já levantadas por juristas.

O sinal emitido pela pesquisa tem consequências práticas: pressiona a corte a adotar mudanças internas para recompor confiança; aumenta a probabilidade de iniciativas legislativas ou mesmo emendas por fora do Judiciário; e coloca o tema no centro das campanhas de 2026, em especial nas disputas ao Senado, onde um resultado adverso poderia viabilizar tentativas de impeachment de magistrados. A alternativa —a omissão— tende a aprofundar a erosão de legitimidade. Em termos institucionais, resta à corte e ao Congresso a responsabilidade de responder com regras que equilibrem autonomia judicial e mecanismos de transparência, sem ceder a soluções de curto prazo que apenas agravem a polarização.