Em um painel sobre a caatinga no evento Lemann Dialogue 2026, em Harvard, a historiadora Kenia Sousa Rios apresentou evidências que reativam um capítulo pouco conhecido da história brasileira: os chamados “currais do governo” erigidos em Fortaleza nas secas de 1915 e 1932 para confinar retirantes. A história recuperada por Rios — debatida na mesa com Daniela Nogueira (UnB) e Washington de Franca Rocha (UEFS) e questionada por Marcia Castro (David Rockefeller Center, Harvard) — surpreendeu a audiência internacional: ninguém na sala havia ouvido falar desses currais.
Os números relatados na pesquisa traduzem a dimensão do drama. A seca de 1877, citada como antecedente, empurrou cerca de 100 mil pessoas para uma Fortaleza de então 25 mil habitantes; em 1878 houve relatos de até mil mortes em um único dia. Nas décadas seguintes, o estado reagiu com estruturações de confinamento: a seca de 1915 inspirou registros de currais que precederam, cronologicamente, campos europeus posteriores; em 1932, a segregação materializou-se em sete currais que reuniram dezenas de milhares de retirantes, em locais superlotados e com surtos de varíola e febre amarela. São dados que não devem ser romantizados, mas reconhecidos como prova de políticas públicas de exclusão social.
O contraste proposto no debate veio pelo lado da memória do Holocausto. O escritor e sobrevivente Yehiel De‑Nur, conhecido como Ka‑Tzetnik 135633, cuja experiência e colapso durante o julgamento de Adolf Eichmann em 1961 entraram para a história, serve aqui como espelho de uma reflexão moral: o relato de sua frase — “Fiquei com medo de mim mesmo” — e a busca por tratamentos, incluindo terapias com LSD na clínica do psiquiatra Jan Bastiaans, apontam para o espaço íntimo do horror e para a facilidade com que sociedades e indivíduos podem normalizar a crueldade. O paralelo não é equação histórica, mas advertência ética.
Há avanços importantes: políticas sociais ao longo do século XX reduziram a mortalidade por fome no semiárido. Ainda assim, as projeções climáticas citadas no debate — aquecimento de até 5°C e redução de precipitação em cerca de 40% até o fim do século — redesenham a vulnerabilidade. Em um país onde mecanismos institucionais e escolhas políticas já mostraram propensão à letalidade, e diante da memória recente de respostas desastrosas à pandemia, a redescoberta dos currais acende alerta. Não se trata apenas de evocação histórica, mas de consequência política: planejamento, capacidade administrativa e responsabilidade fiscal serão decisivos para que crises ambientais não se traduzam em novas formas de exclusão e violência social.