Um editorial da Folha conclama o Brasil a iniciar um debate público e legislativo sobre a eutanásia, mesmo diante da resistência majoritária apontada por pesquisa Datafolha. O levantamento mostra que 56% rejeitam a intervenção médica direta para provocar a morte, enquanto 39% se dizem favoráveis; no caso do suicídio assistido, 60% são contrários e 35% apoiam a prática.

O texto do jornal atribui parte da oposição a raízes religiosas: quem não tem religião tende a aceitar a ajuda médica em maior proporção do que católicos e evangélicos. Ainda assim, a Folha lembra experiências recentes no exterior — são 16 países que autorizaram alguma modalidade de morte assistida, entre eles Alemanha, Bélgica, Canadá, Espanha e Portugal — e cita casos em que a maioria pública aprovou leis a despeito da tradição religiosa, como Espanha e Colômbia.

A recomendação editorial é clara: a regulamentação da morte assistida deve passar pelo Parlamento e não ser suprimida por inércia. Para viabilizar essa via, a Folha pede construção de consenso por meio de informação, debates baseados em evidências e respeito aos princípios da laicidade e das liberdades individuais. O argumento central é que negar opções a pacientes terminais em sofrimento pode configurar uma imposição contrária à dignidade.

Politicamente, o apelo abre um dilema para o Congresso: avançar em um tema sensível arrisca confronto com bancadas religiosas e uma parcela significativa da opinião pública; não avançar, porém, mantém um vazio regulatório e transfere decisões para o Judiciário ou para a arbitrariedade local. O desafio, conclui o editorial, é transformar a resistência em um processo deliberativo transparente e informado, capaz de produzir uma resposta institucionalmente legítima.