Na coluna publicada esta semana, o sociólogo Muniz Sodré recorre a uma imagem extrema — a de ruas inundadas por dejetos após um ataque a uma rede de esgotos — para articular uma crítica ampla sobre o estado da política internacional. Para o autor, episódios grotescos do conflito no Oriente Médio não são meras ocorrências isoladas, mas indicadores de uma deterioração moral e simbólica que atravessa potências, teocracias e estratégias militares.
Sodré investe sua análise tanto contra lideranças como contra narrativas. Afirma que figuras como Trump e governos como o de Netanyahu encenam papéis mitológicos — heróis ou vingadores — enquanto, na prática, acumulam pequenas e grandes falhas que geram custo político e simbólico. Do lado iraniano, ressalta o fortalecimento interno da Guarda Revolucionária, cuja repressão consolida poder mesmo em meio à crise externa.
A coluna também vincula a disputa a interesses concretos: a voracidade por solos e subsolos, recursos e posições geopolíticas. Essa dimensão econômica, diz Sodré, atua em paralelo ao espetáculo bélico, transformando a guerra em palco de velhas ambições neocoloniais. Assim, a violência não apenas produz vítimas imediatas, mas reconfigura poder e recursos em favor de atores que lucram com a instabilidade.
Politicamente, o diagnóstico é duro: nenhum dos atores principais sai fortalecido no plano internacional de forma legítima; alguns — como a Guarda Revolucionária — ampliam influência interna, enquanto líderes como Trump ganham exposição mas não necessariamente vantagens estratégicas duradouras. Para o autor, a consequência mais preocupante é a erosão de referências civilizatórias que deveriam conter o grotesco e o abuso contra infraestrutura civil.
Do ponto de vista jornalístico e político, a coluna opera como alerta sobre o custo real das operações e dos gestos simbólicos que acompanham guerras contemporâneas. Mais do que retórica, recomenda atenção às consequências institucionais e sociais: ampliação de poderes autoritários, persistência de clivagens regionais e o reforço de narrativas que legitimam a violência em nome de interesses estratégicos ou religiosos.