O mais recente Censo do Gife joga luz sobre uma contradição central da filantropia institucional no Brasil: embora mulheres constituam cerca de 70% da força de trabalho do setor, a fatia de recursos destinada explicitamente à igualdade de gênero e aos direitos LGBTQIAPN+ é residual. São R$ 89 milhões — apenas 1,5% dos R$ 5,8 bilhões mobilizados pelas instituições associadas — num país em que a urgência das demandas de gênero é documentada por dados alarmantes sobre violência e desigualdade. Esse gap entre presença operacional e protagonismo decisório aponta para um problema estrutural, não apenas temático.
A discrepância se acentua na governança. Mulheres têm participação relevante nas operações, mas seu peso diminui nas instâncias de decisão: conselhos deliberativos ainda são majoritariamente masculinos e entre os grandes investidores a concentração de poder recai sobre homens. O efeito prático é previsível: escolhas de alocação que privilegiam abordagens técnicas e quantitativas em detrimento de perspectivas centradas no cuidado, na reparação e na transformação das estruturas de poder. Em outras palavras, a filantropia segue tratada como gestão de projetos, quando deveria também questionar como recursos e saberes reproduzem desigualdades.
O impacto social dessa configuração é direto. Em 2025 o país registrou, em média, cinco feminicídios por dia, 77 assassinatos de mulheres trans e travestis, mais de um quarto das mulheres afetadas por violência doméstica e cerca de 8,8 milhões de vítimas de violência digital — números que demandam respostas substanciais e estratégicas. Ao mesmo tempo, cerca de 90% dos cuidadores informais são mulheres, trabalho essencial mas invisibilizado e não remunerado. Que tipo de transformação é possível quando menos de 2% dos recursos do investimento social privado mira essas causas e quando quem decide sobre o destino do dinheiro não reflete as experiências das pessoas atingidas?
A leitura do Censo do Gife indica que a filantropia brasileira está em um ponto de inflexão: convive com práticas predominantes e com propostas emergentes, como a filantropia feminista, que desloca o foco do caridade para a redistribuição de poder e da análise das estruturas. Para converter intenção em impacto será preciso rever governança, meta de investimentos e produções de conhecimento no setor. A questão não é apenas ampliar verbas, mas reconfigurar quem define prioridades, como se mede resultado e de que modo a filantropia cumpre sua promessa de ‘amor à humanidade’ em contextos de desigualdade sistêmica.