Um cruzamento de bases públicas feito a partir de dados do Inpe e do IBGE revela que as 50 cidades brasileiras que mais desmontam vegetação não colhem o suposto benefício econômico esperado. A renda média nesses municípios é 27% menor que a média nacional, e 47 das 50 cidades listadas têm rendimento mensal per capita abaixo do país — sinal claro de que devastação e prosperidade não caminham juntas automaticamente.

O contraste fica evidente em casos extremos. Lábrea (AM), apontada como líder em desmatamento, tinha renda média mensal de R$ 1.590,46 em 2022, pouco mais da metade da média nacional de R$ 2.850,64 naquele ano. Esses números mostram que a transformação da floresta em pastagem ou lavoura não se traduz, na maioria dos casos, em elevação generalizada do padrão de vida local.

Há exceções pontuais: três municípios de Mato Grosso — Aripuanã (R$ 3.209,40), Nova Bandeirantes (R$ 2.875,32) e Paranatinga (R$ 2.852,79) — registram renda acima da média. Mas especialistas ouvidos na reportagem destacam que médias elevadas podem mascarar concentração de riqueza. Regiões com grandes propriedades e poucos beneficiários elevam a média sem necessariamente melhorar as condições da população em geral.

Autoridades científicas consultadas reforçam que a ideia de que desmatar equivale a desenvolvimento é um mito. Pesquisadores vinculados a avaliações internacionais de clima apontam que a literatura acadêmica não sustenta a tese de progresso via derrubada: ganhos pontuais para atores específicos convivem com perda de serviços ecossistêmicos, custos sociais e menor dinamismo econômico local.

Do ponto de vista político e econômico, os dados expõem contradições na defesa pública e privada do afrouxamento ambiental em nome do crescimento. O recorte revela custo fiscal e social potencialmente oculto por médias enganosas e acende um alerta sobre a necessidade de políticas que integrem gestão ambiental, reforma fundiária, investimento em infraestrutura e distribuição de renda. Em suma: desmontar florestas não é atalho para prosperidade e a agenda pública precisa medir resultados reais, não narrativas convenientes.