Nesta sexta-feira, na marca de dez anos da sessão histórica que admitiu o pedido de impeachment de Dilma Rousseff, a memória política volta a foco com as palavras de quem presidiu a Câmara naquele momento. Ex-deputado federal e presidente da Casa no episódio, Eduardo Cunha recorda em artigo e no livro 'Tchau, Querida' a decisão monocrática que levou o processo adiante e os caminhos que culminaram no encaminhamento ao Senado. O placar daquela longa votação foi de 367 a 137, abreviando o mandato que terminou oficialmente com o afastamento em maio e a perda do cargo em agosto de 2016.
Na versão que Cunha oferece, o rito não teve como causa determinante as chamadas 'pedaladas fiscais', mas sim a execução de decretos orçamentários sem amparo na lei vigente. Ele associa esse aspecto técnico-jurídico ao contexto econômico e político da época: desemprego em torno de 9,5%, inflação superior a 10% e índices de desaprovação perto de 70%, segundo levantamentos citados no texto. Para Cunha, esses elementos configuraram um desgaste político que tornou o governo vulnerável a uma saída institucional por impeachment.
O ex-presidente da Câmara também aborda o efeito político de longo prazo do processo. Para ele, o impeachment contribuiu para a formação de uma direita mais aguerrida e ideologizada e, indiretamente, abriu espaço para figuras que vieram a disputar o poder nas eleições seguintes. Cunha critica ainda a presença de influenciadores digitais na cena política e afirma que houve interferência de autoridades do Ministério Público —curtindo acusações sobre uso de delação que, segundo ele, teria buscado desmoralizar o governo que sucedeu o afastamento—, além de aludir a práticas judiciais que alteraram o curso político do país.
O balanço que sai do depoimento público de Cunha é, antes de tudo, interpretativo: uma leitura que privilegia a dimensão técnica da execução orçamentária e enfatiza consequências políticas e institucionais. Para analistas e para o próprio campo político, a lembrança do episódio reacende questões sobre limites do uso do impeachment, responsabilidade administrativa e o papel das instituições em momentos de crise. Independentemente da concordância com suas conclusões, o texto de Cunha reforça que a saída de 2016 deixou marcas duradouras na configuração partidária e no debate sobre estabilidade e legalidade na política brasileira.