A última pesquisa Datafolha devolve ao centro do debate um tema econômico com forte reflexo político: 67% dos entrevistados dizem ter dívidas financeiras (excluídos consignados) e 28% afirmam ter contas de consumo em atraso — luz, água, internet, assinaturas. Os números não são apenas estatística: traduzem perda de folga no orçamento das famílias, freio ao consumo e maior vulnerabilidade a choques futuros.
O quadro vinha se desenhando desde a elevação das taxas de juros no final de 2024. Em termos agregados, o crédito a pessoas físicas cresceu de um equivalente a 20% do PIB no fim de 2010 para cerca de 35% hoje. Taxas mais altas encarecem o serviço da dívida e aumentam a inadimplência. Pesquisas complementares, como a da Confederação Nacional do Comércio, corroboram a deterioração: em março, mais de 80% relatavam algum tipo de dívida, com quase 30% em atraso.
Do ponto de vista político, os números acendem alerta. A associação entre a piora do crédito e a subida dos juros oferece munição para críticas ao manejo fiscal do governo — hipótese que ganhou espaço quando a reação oficial ao problema só se intensificou após queda de prestígio presidencial. A leitura política é direta: endividamento crescente e contas atrasadas ampliam desgaste e complicam a narrativa de recuperação econômica que o Executivo tenta sustentar.
No cotidiano, o diagnóstico também é claro. Mais de metade dos entrevistados usa cartão de crédito; 84% concordam que ofertas por celular e internet facilitam o endividamento por impulso; 82% dizem que a facilidade de novos cartões leva muita gente a se endividar. Esse padrão combina acesso ampliado ao crédito com rendas comprimidas e custos financeiros mais altos — uma fórmula que reduz demanda por consumo duradouro e eleva risco social para os mais fragilizados.
Não há solução imediata: remendos pontuais não revertendo a piora estrutural do crédito. A saída exige combinação de disciplina fiscal para reduzir pressão sobre juros, políticas direcionadas de proteção aos mais vulneráveis e medidas que restrinjam práticas de concessão de crédito predatórias. Do ponto de vista institucional, os dados exigem que o governo mostre, com números e medidas críveis, como pretende recuperar o poder de compra das famílias sem transferir o custo para os mais pobres — caso contrário, o problema seguirá sendo um fator de desgaste político e de risco para a atividade econômica.