Um estudo publicado na revista Nature assina a maior análise até agora do DNA de povos indígenas das Américas. Coordenada pela brasileira Tábita Hünemeier, do Instituto de Biociências da USP, a equipe internacional obteve 128 genomas de alta qualidade, cobrindo etnias do México à Patagônia e incluindo grupos brasileiros como guajajaras, tupiniquins e suruís, com predominância de amostras amazônicas.
Os resultados confirmam um elo genético entre populações indígenas da América do Sul e povos atuais da Australásia por meio do chamado "sinal Ypykuéra", estimado entre 1% e 3% do genoma em alguns grupos. Esse traço aparece também em genomas humanos antigos do Brasil, como um indivíduo de 10,4 mil anos do Sumidouro, o que sugere eventos de miscigenação muito antigos antes ou durante a chegada ao continente.
Além do vínculo com a Oceania, os pesquisadores identificaram cerca de 1,5 milhão de variantes que parecem exclusivas das populações indígenas e aplicaram métodos para estimar consanguinidade, gargalos populacionais e isolamento histórico. As análises apontam para três grandes ondas de dispersão rumo à América do Sul, embora a datação precisa da primeira expansão ainda seja debatida por arqueólogos e geneticistas.
O trabalho também buscou sinais de seleção natural: algumas regiões associadas ao sinal Ypykuéra parecem conter genes ligados à fertilidade, respostas imunológicas e formação vascular, que podem ter sido favorecidos ao longo do tempo. Em termos científicos, o estudo amplia e complica a narrativa simplista do povoamento das Américas, mostrando uma história populacional mais conectada e dinâmica do que se pensava.