A perspectiva de retorno do El Niño acende um sinal de alerta para a Região Metropolitana de São Paulo, onde o sistema Cantareira responde por metade do abastecimento. Os níveis do manancial mostram a fragilidade atual: em 19 de março de 2023 e 2024 estavam em torno de 79,6% e 76,7%; neste ano, caíram para 42,7%, o patamar mais baixo em dez anos após a crise de 2014–2016.
O El Niño tende a provocar extremos climáticos — calor e alteração das chuvas — e a maioria dos institutos indica que o evento de 2026 deve variar de moderado a forte. O Centro Europeu chegou a apontar a possibilidade de um dos episódios mais intensos em mais de um século. A SP Águas estima 62% de probabilidade de ocorrência entre junho e agosto e projeta elevação das temperaturas no trimestre abril–junho na ordem de 0,4°C a 0,6°C acima da média.
Meteorologistas ouvidos destacam que a situação do Cantareira não surgiu de forma repentina: a combinação de dois verões com chuva insuficiente deixou o armazenamento baixo já no início da estação úmida. Com isso, mesmo chuvas pontuais não compensariam perdas por evaporação e aumento do consumo em ondas de calor. Especialistas alertam que o sistema não construiu “gordura” operacional e que dependerá de volumes favoráveis no final de 2026 e início de 2027 para recuperar margem de segurança.
Em resposta, a autarquia estadual diz trabalhar preventivamente, incorporando cenários críticos ao planejamento operacional e mantendo a ativação do Protocolo de Escassez Hídrica onde necessário. Medidas já em vigor atingem o Alto Tietê e trechos da bacia do Piracicaba, com suspensão de novas outorgas salvo para usos prioritários e intensificação da fiscalização sobre grandes consumidores. Politicamente, o novo risco eleva a pressão sobre gestores e pode exigir medidas mais duras caso as chuvas não venham — com impacto direto em domicílios, serviços e atividade econômica na região.