Um estudo do BISC (Benchmarking do Investimento Social Corporativo), apresentado na sede da B3 nesta terça-feira (28), conclui que empresas vêm usando projetos sociais para enfrentar gargalos que impactam diretamente suas operações — entre eles, a falta de mão de obra qualificada e fragilidades na cadeia produtiva. A pesquisa identifica a capacitação profissional como um vetor capaz de destravar potencial de mercado ao mesmo tempo em que eleva a renda dos trabalhadores, na avaliação de executivos ouvidos pelo levantamento.
O relatório descreve uma mudança de papel do investimento social dentro das companhias: iniciativas que antes eram isoladas passaram a integrar o planejamento estratégico, com foco em resultados de longo prazo. Educação e qualificação continuam predominantes entre os temas, e programas voltados ao desenvolvimento de jovens aparecem com frequência, especialmente em localidades com menor oferta de vagas formais. Há também padrão claro de atuação em territórios onde as empresas mantêm fábricas ou centros logísticos.
A pesquisa registra maior aproximação entre as áreas responsáveis por projetos sociais e a alta liderança das empresas, além do uso de ferramentas de monitoramento para medir impactos sociais e retornos indiretos, como reputação. Parcerias com organizações da sociedade civil e instituições de ensino têm ampliado o alcance das ações, e setores como construção civil já estruturam programas de carreira com apoio de entidades técnicas para mitigar o apagão de profissionais especializados.
O movimento, ainda que trate problemas reais de produtividade, levanta questões políticas e institucionais. Ao priorizar investimentos em áreas que beneficiam operações próprias, empresas podem reduzir riscos e custos — mas também correr o risco de substituir políticas públicas essenciais e promover uma distribuição seletiva de benefícios. O estudo aponta o debate sobre os limites entre interesse público e privado e a necessidade de maior transparência e alinhamento com prioridades coletivas.
O relatório foi elaborado a partir de revisão bibliográfica e pesquisa de campo realizada entre maio e setembro de 2025, com coleta de dados qualitativos e quantitativos. Entre as instituições que participaram do levantamento estão B3 Social, Fundação Cargill, Fundação Sicredi, Instituto C&A, Instituto Coca‑Cola Brasil, Instituto Lojas Renner, Instituto Votorantim, Instituto Ultra, Gerdau e Neoenergia. Executivos consultados reforçam a tese de que qualificação profissional é peça-chave para o crescimento empresarial e para a melhora das condições de trabalho.