Um estudo do Ipea com base na RAIS 2023 conclui que profissionais com jornada semanal de 44 horas —associada à chamada escala 6x1— recebem, em média, 57,7% menos do que os que trabalham até 40 horas. Segundo o instituto, o salário médio dos trabalhadores com até 40 horas é de R$ 6.211; quem tem 44 horas aufere cerca de R$ 2.626, enquanto a remuneração média por hora cai para R$ 2.391. O levantamento inclui 44 milhões de vínculos formais e registra 31,8 milhões com jornada de 44 horas, equivalente a 74% dos contratos informados.
O estudo destaca forte associação entre jornadas estendidas e menor escolaridade: mais de 83% dos vínculos de 44 horas correspondem a trabalhadores com ensino médio completo, percentual que recua para 53% entre os com nível superior. As jornadas mais longas predominam em ocupações que exigem menor qualificação formal —atividades simples na indústria, agropecuária e comércio— enquanto cargos técnicos e superiores concentram horários reduzidos. Além disso, apenas 41% dos trabalhadores com vínculo formal são mulheres, proporção ainda menor entre quem tem jornadas elevadas e remunerações abaixo de dois salários mínimos.
A discussão sobre o fim da escala 6x1 chega ao Congresso com duas PECs já aprovadas na CCJ e um projeto de lei do governo que altera pontos da CLT. O Ipea estima que reduzir a jornada de 44 para 40 horas elevaria o custo da mão de obra em 7,84% no país; uma adoção da escala 4x3 (36 horas) poderia subir os custos em 17,57%. Boa parte dos contratos de 44 horas está em empresas de pequeno porte: 3,39 milhões em companhias com até quatro empregados e 6,64 milhões até nove empregados. O instituto ressalta, contudo, que parte do aumento poderia ser assimilado pela economia, como ocorreu após reajustes reais do salário mínimo.
Do ponto de vista político e social, o relatório coloca na agenda um dilema clássico: promover justiça distributiva reduzindo jornadas e desigualdade, ao mesmo tempo em que se aumenta o custo do trabalho e se pressiona empresas, sobretudo as menores. Para os formuladores de política, os dados reforçam que a proposta tem efeito redistributivo, mas exigirá soluções práticas para mitigar impactos setoriais e regionais, além de calibrar o discurso legislativo diante do custo econômico que a mudança implicaria.