Uma onda de protestos rurais se espalha pela Índia após a instalação de usinas de etanol que moradores dizem reduzir o acesso à água e à terra. O tema ganhou força diante da estratégia nacional de segurança energética: o país, que importa cerca de 80% de seu petróleo e gás, elevou a mistura de etanol na gasolina de 1% em 2014 para 20% no ano passado.
O caso de Tibbi, no estado de Rajasthan, tornou-se símbolo do conflito. Agricultores relatam que só perceberam o projeto quando máquinas começaram as perfurações; mobilizações locais cresceram, líderes foram detidos e, em dezembro, uma construção chegou a ser interrompida após grandes manifestações. Produtores também foram a Punjab para acompanhar efeitos de uma usina semelhante, apontando contaminação de águas subterrâneas e problemas de saúde em comunidades que já haviam protestado.
Parte da controvérsia decorre de uma mudança às normas ambientais em 2021, que permite que usinas de etanol à base de grãos dispensem avaliações detalhadas e audiências públicas se atenderem metas de mistura e adotarem o chamado ZLD (Descarga Líquida Zero). Moradores e ativistas questionam a aplicabilidade e a fiscalização do ZLD: em casos anteriores, dizem, resíduos teriam sido desviados e normas, contornadas. O Tribunal Nacional Verde recebeu recursos, enquanto autoridades distritais e o Ministério do Meio Ambiente não responderam à reportagem.
O choque entre metas nacionais de descarbonização e a pressão sobre recursos hídricos locais expõe um custo político e institucional para governos centrais e estaduais. Protestos em Telangana, Maharashtra, Uttar Pradesh e Rajasthan mostram que a expansão do etanol enfrenta resistência em regiões com estresse hídrico. Sem consultas efetivas e fiscalização rígida das garantias ambientais, projetos podem gerar atrasos, litígios e custos econômicos, além de corroer a confiança das comunidades afetadas.