Era para ser uma demonstração de maturidade tecnológica: o New Glenn, da Blue Origin, repetiu o sucesso do reuso do primeiro estágio, mas falhou em sua missão principal. Um problema no segundo estágio deixou o satélite Bluebird 7 em uma órbita baixa demais, tornando-o inutilizável e condenado à reentrada em poucos dias. Haverá ressarcimento parcial por seguro, mas o revés é técnico e político.

O impacto extrapola a perda do satélite. O New Glenn é peça-chave na cadeia de fornecedores que a Nasa montou para a volta à superfície lunar: além de ser cotado para lançar o módulo Blue Moon Mk. 2 — potencial componente da Artemis 4 —, o foguete deveria levar semanas adiante o pousador robótico Blue Moon Mk. 1. Agora, semanas viraram meses, e esse descompasso reduz a margem de manobra da agência num cenário de competição com a China.

A pressão é sistêmica. A SpaceX, outra peça fundamental, também acumula atrasos no desenvolvimento da Starship, enquanto o fornecimento de trajes lunares foi terceirizado e enfrenta riscos próprios. Um relatório do Escritório do Inspetor Geral da Nasa aponta que, se a Axiom registrar atrasos alinhados à média histórica, demonstrações previstas para a Artemis e para a Estação Espacial Internacional podem só ocorrer em 2031. O administrador da Nasa, Jared Isaacman, diz trabalhar para acelerar a entrega, mas os sinais de empilhamento de problemas são claros.

Em suma: o sucesso parcial do New Glenn não neutraliza o custo político e técnico da falha. A combinação de problemas em lançadores, pousadores e trajes reduz folga no cronograma e complica a estratégia americana diante da corrida lunar. A missão Artemis 3, prevista para o ano que vem, será o primeiro teste real do sistema integrado — um termômetro para saber se os atrasos serão superáveis ou se o calendário lunar sofrerá revisões mais profundas.