Elio Gaspari, jornalista e autor de extensos volumes sobre a ditadura militar, sustenta que a maior realização política do atual governo foi conseguir tirar as Forças Armadas do centro do risco golpista ao final de 2022. Na avaliação que originou essa conclusão está o papel decisivo de comandantes que se negaram a acompanhar movimentos contra a ordem constitucional, um comportamento que, segundo relatos, impediu que o golpismo escalasse para um apoio militar.

O brigadeiro da Aeronáutica Carlos Baptista Júnior tornou-se figura emblemática desse episódio. Autor do livro Eu Disse Não — Uma Trincheira Antigolpista, ele relatou em entrevista à repórter Bela Megale que alertou o então presidente sobre o custo de se empurrar as Forças Armadas para essa encrenca. A recusa — registrada também em outras cúpulas, salvo exceções — acabou por interromper a guinada golpista e, na percepção de Gaspari, preservou a confiança necessária ao funcionamento das instituições.

O efeito prático dessa resistência não foi neutro: a devolução da cadeira presidencial e a responsabilização de envolvidos na trama figuram, no diagnóstico do autor, entre as consequências políticas mais visíveis. O texto-base aponta que dezenas de pessoas ligadas ao episódio chegaram a ser presas, inclusive o ex-presidente apontado como articulador. Para o jornalismo, esse desfecho reforça a ideia de que a ação de atores militares pode tanto ameaçar quanto salvar a institucionalidade — dependendo das escolhas de comando.

A narrativa de Gaspari oferece um recorte sólido para avaliar o legado imediato do surto golpista: não se trata apenas de retórica, mas de um gesto concreto de manutenção da normalidade republicana. Ao mesmo tempo, a interpretação impõe um alerta — a preservação da democracia exigiu decisões individuais e institucionais que merecem registro e vigilância. Reconhecer essa proeza, como faz o colunista, não dispensa acompanhamento sobre confiança, disciplina institucional e o papel das Forças nas próximas disputas políticas.