Uma fábrica de gelo abastecida por energia solar entrou em operação neste mês na comunidade ribeirinha de Santa Helena do Inglês, em Iranduba (AM). Batizado de Gelo Caboclo, o complexo tem capacidade para produzir cerca de uma tonelada de gelo por dia e armazenar até 20 toneladas. O conjunto inclui poço artesiano para água potável e uma pequena usina com placas fotovoltaicas e baterias de lítio que garantem funcionamento contínuo.
Para as mais de 30 famílias que dependem da pesca, a usina representa redução de custos e maior autonomia. Pescadores relatam que, antes, o gelo era comprado em Manaus, a cinco horas de barco, o que implicava gastos com combustível, contratação de mão de obra e perdas por derretimento — por isso costumavam comprar quantidade extra para se precaver. Com a produção local, esperam evitar desperdícios e reduzir despesas durante a temporada.
A solução foi viabilizada por uma articulação entre organizações sociais e iniciativa privada. A Fundação Amazônia Sustentável (FAS) mobilizou o Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam) e integrou o projeto ao Programa Prioritário de Bioeconomia (PPBio), ligado à Suframa. A Positivo aportou R$ 1,3 milhão em PD&I e a UCB Power doou baterias avaliadas em R$ 200 mil — total de R$ 1,5 milhão. O licenciamento foi conduzido pela FAS e a própria comunidade elegeu o gestor local, que recebe assessoria técnica para a gestão do empreendimento.
O projeto reduz emissões associadas ao transporte e corta um dos principais gargalos logísticos da cadeia da pesca artesanal na região. Ao mesmo tempo, a experiência expõe questões centrais para a replicação: manutenção tecnológica, capacidade de gestão local e garantia de receita para cobrir custos operacionais. A iniciativa, que deve atender cerca de 70% da demanda na temporada e deixar 30% para complementação em Manaus, funciona como piloto de políticas de bioeconomia, mas dependerá de governança e financiamento sustentáveis para se transformar em modelo escalável.