Em visita a São Paulo, Allan van Capelle, diretor executivo do High Line, apresentou o parque de Manhattan como um caso de gestão sustentada por organização sem fins lucrativos. Criado a partir de uma antiga linha férrea e aberto ao público em 2009, o High Line é mantido majoritariamente por doações e conta hoje com cerca de 5.000 a 7.000 membros no programa "Amigos do High Line".
A experiência americana contrasta com o modelo adotado em São Paulo, onde 16 parques já foram concedidos à iniciativa privada e outros seis estão em processo de concessão. Conflitos recentes no Villa-Lobos, com frequentadores organizando resistência a ocupações para eventos privados, ilustram tensões sobre usos do espaço. A concessionária responsável negou mudanças no padrão de uso e defendeu um modelo multifuncional.
Van Capelle destacou que a organização do High Line tem como missão defender o interesse dos usuários — programar, conservar e angariar recursos — enquanto empresas privadas têm obrigação de gerar retorno financeiro. No entanto, ele também reconheceu que o parque depende fortemente de fundos privados porque o aporte público nem sempre cobre reparos estruturais, gerando uma lacuna que precisa ser preenchida por doações.
A lição para gestores públicos é dupla. Por um lado, organizações sem fins lucrativos podem preservar o caráter público e a qualidade de equipamentos urbanos com foco na experiência dos usuários; por outro, esse sucesso costuma se concentrar em bairros com bases de doadores mais ricas, o que pode ampliar desigualdades na qualidade dos espaços. Além disso, a dependência de recursos privados não elimina a necessidade de financiamento público para manutenção estrutural.
Para municípios que avaliam concessões, o debate não é binário: trata‑se de combinar garantias contratuais claras sobre acesso e usos, fiscalização rigorosa e medidas para assegurar investimentos públicos em infraestrutura. Sem isso, a terceirização pode transferir escolhas sensíveis sobre quem usa e como se usa o espaço para interesses com objetivos distintos do interesse público.