O colunista Daniel Gleizer responde à recente provocação de Bernardo Carvalho sobre os limites entre antissionismo e antissemitismo. Gleizer sustenta que há um ponto em que a crítica política a Israel deixa de ser debate legítimo e passa a configurar discriminação, sobretudo quando aplica padrões que não são cobrados de outros Estados.
No centro da réplica está a leitura que Carvalho empresta a Freud e a Edward Said. Para Gleizer, recorrer a Freud para apagar a consistência histórica da identidade judaica e transformar a formação do povo judeu num processo excepcional resulta em comparação seletiva: traços comuns à construção de nações são usados, apenas no caso judeu, para deslegitimar um projeto nacional.
Gleizer também contesta a caracterização do sionismo como um projeto colonial clássico. O argumento perde força, segundo ele, quando se exige da definição de colonialismo a presença de uma metrópole exploradora — condição ausente no caso dos movimentos sionistas — e quando se ignora a longa presença judaica na região anterior à expansão europeia.
A discussão ultrapassa debates eruditos: diz respeito aos critérios do discurso público sobre Israel e à linha entre crítica política e hostilidade contra judeus. Gleizer pede consistência analítica e critérios que diferenciem julgamentos legítimos de atos que, na prática, delegitimam um povo inteiro.