O governador em exercício Ricardo Couto — presidente do Tribunal de Justiça do Estado do Rio — deflagrou um pente‑fino administrativo que já resulta em exonerações e tensiona a base política ligada ao ex-governador Cláudio Castro. Amparado por declaração do ministro Edson Fachin sobre a validade de sua atuação, Couto ordenou auditoria geral nas secretarias e na administração indireta: cada órgão terá 15 dias para entregar um diagnóstico detalhado de pessoal, licitações e contratos.

O alcance da medida é político e administrativo. Há cerca de 7.000 contratos acima de R$ 1 milhão no estado, número que chama atenção num cenário de crise fiscal. As exonerações — que já atingem assessores e cargos de confiança — funcionam como um 'barata‑voa' em ano eleitoral, desmontando estruturas locais de articulação e reduzindo a capacidade de manobra de quem vinha usando a máquina para fins políticos. A movimentação expõe contradições na articulação bolsonarista no estado e aumenta o custo político para aliados protegidos por gestões anteriores.

O caso de Fabrício Queiroz, instalado em cargo de subsecretário de Segurança em Saquarema, ilustra o problema: reportagens apontam que sua nomeação resultou de ajuste entre o ex‑prefeito e o diretório do PL, e Queiroz tem sido presença em atos públicos ao lado de lideranças bolsonaristas. Flávio Bolsonaro, ao tentar distanciar‑se das rachadinhas, atribuiu a Queiroz responsabilidade exclusiva, sem explicar depósitos e preservações políticas que o mantêm em posições públicas. Esse tipo de arranjo fica mais vulnerável diante de auditorias e do escrutínio institucional.

Politicamente, a operação de Couto complica a narrativa do bolsonarismo no Rio: se o governador tampão permanecer até outubro, como pode permitir o STF, as ações administrativas poderão moldar fortemente o tabuleiro eleitoral. A investigação dos contratos e a redistribuição de cargos podem reduzir o alcance de candidaturas alinhadas ao grupo, forçar reajustes de aliança e criar risco reputacional em ano decisivo. Em suma: a gestão em exercício não só fiscaliza contas, como redesenha poder local e impõe um novo patamar de custos políticos para quem apostava em controle administrativo como vantagem eleitoral.