No início de outubro de 2002, a campanha de Lula exibiu um filme que virou ícone do marketing eleitoral: mulheres de branco caminhando por um campo de trigo numa fazenda na região de Maringá, embaladas por 'Bolero' e por uma pergunta sobre o país que se quer deixar às próximas gerações. A peça, produzida por Duda Mendonça, reuniu cerca de 50 pessoas — algumas com barrigas falsas — e pagou entre R$ 25 e R$ 40 a cada participante, valores modestos mesmo para a época.
O objetivo da campanha era suavizar a imagem do candidato, aproximá‑lo do centro e escudar a mensagem numa ideia de futuro e conciliação. Para membros da coordenação, a peça trabalhava família, mulher e perspectiva geracional como forma de neutralizar ataques e ampliar o apelo eleitoral. O filme cumpriu seu papel naquele momento: Lula venceu em primeiro turno e consolidou uma guinada política que mudou o tabuleiro nacional.
Duas décadas depois, o efeito pessoal dessa esperança virou história com contornos complicados. Juliane Souza, que tinha 26 anos e estava grávida de Gabriela quando participou como modelo, lembra ter acreditado na promessa de mudança. Anos depois, porém, ela conta que a adesão foi curta — “dois ou três anos”, diz — e que hoje não pretende votar novamente em Lula. Viúva desde 2008, Juliane trabalha como motorista de aplicativo em Maringá; na pandemia passou a confeccionar máscaras e a transportar pacientes para complementar a renda.
O balanço familiar mostra avanços e limites: os três filhos chegaram ao ensino superior — a mais velha é biomédica, Gabriela é publicitária e o caçula estuda desenvolvimento de sistemas —, mas a sensação de instabilidade financeira persiste. Mãe e filha buscam alternativas fora da polarização e acompanham nomes como Renan Santos (Missão) e Ronaldo Caiado (PSD) sem decisão tomada. O percurso delas espelha como símbolos de campanha podem se descolar da experiência cotidiana, e como promessas de transformação enfrentam o teste lento das trajetórias pessoais.