A greve dos estudantes da Universidade de São Paulo se ampliou e já foi aprovada em 15 faculdades e institutos, tanto na capital como no interior. Entre as adesões mais recentes estão os institutos de relações internacionais, física e ciências biomédicas, além das faculdades de Ciências Farmacêuticas, de Educação e a Escola de Comunicação e Artes (ECA). Historicamente refratária a paralisações, a Escola Politécnica também aprovou a participação — 322 votos a favor e 224 contra —, sinalizando que o movimento extrapola núcleos tradicionalmente engajados.

Os protestos concentram demandas concretas: aumento no valor de bolsas para garantir permanência estudantil e correções no serviço dos restaurantes universitários, alvo de denúncias recentes de refeições estragadas e presença de larvas, especialmente na Faculdade de Direito. As unidades de alimentação são terceirizadas, o que reforça questionamentos sobre fiscalização e responsabilidade da gestão quanto à saúde e segurança alimentar de alunos e servidores. O Diretório Central dos Estudantes (DCE) endossa o movimento e busca unificar deliberações nas próximas semanas.

O estopim do conflito foi a aprovação, em 31 de março pelo Conselho Universitário, de uma gratificação denominada Gace (Gratificação por Atividades Complementares Estratégicas), que prevê pagamento adicional de R$ 4.500 a docentes que assumirem projetos considerados estratégicos. O impacto estimado é de R$ 238,44 milhões por ano aos cofres da USP; para um professor-doutor no início da carreira, com salário de R$ 16.353,01, a bonificação representa acréscimo de 27,5% nos vencimentos. A medida, promessa de campanha do reitor Aluísio Segurado, motivou sequência de adesões e já vinha sendo discutida há anos.

A paralisação dos servidores técnico-administrativos, deflagrada na terça-feira seguinte, cria um cenário de potencial convergência de mobilizações. Estudantes já debatem se somar-se-ão às ações dos funcionários, o que ampliaria capacidade de pressão sobre a gestão e aumentaria o risco de impacto no calendário acadêmico e na prestação de serviços. Para a administração, há o desafio de conciliar a valorização docente — apresentada como instrumento de retenção e excelência acadêmica — com limites orçamentários e a necessidade de respostas rápidas às denúncias sanitárias.

Em nota, a reitoria defendeu que a gratificação visa reconhecer e estimular atividades estratégicas e anunciou também reajustes nos benefícios dos servidores, como o vale-alimentação. Ainda assim, a combinação entre custo fiscal elevado do Gace, relatos de falhas na terceirização e a adesão de unidades até então avessas à greve expõe a gestão a um problema político e administrativo de maior vulto. Com assembleias previstas nos próximos dias em unidades que ainda não deliberaram, a administração terá de negociar cláusulas e apresentar soluções técnicas e financeiras concretas para evitar escalada e desgaste institucional.