O choque provocado pela guerra no Irã deixou clara uma contradição na estratégia energética da Índia: avanços impressionantes em capacidade solar e eólica convivem com uma rede e sistemas de armazenamento incapazes de entregar eletricidade confiável quando necessária. O resultado imediato foi maior dependência de petróleo e gás importados para compensar flutuações, pressionando a moeda e as contas externas.

Dados de campo mostram o alcance do progresso: fazendas solares que somam cerca de 40 GW e estruturas que poderiam, em tese, suprir dezenas de milhões de residências. Ainda assim, apenas cerca de um quarto da energia das novas fontes chega efetivamente ao consumidor, contra mais da metade na China — um indicador de perdas técnicas, gargalos de transmissão e falta de reservatórios de armazenamento.

A vulnerabilidade tem custos reais. Com o petróleo em média a US$ 120 por barril para compradores, a valorização dos combustíveis elevou custos de produção e forçou indústrias intensivas em energia a reduzir atividade e postos de trabalho. Além disso, parte importante da economia continua a depender de óleo e gás para aviação, fertilizantes e insumos industriais, mesmo com a expansão de veículos elétricos no horizonte.

Especialistas e executivos do setor apontam que a próxima etapa não é só aumentar painéis e turbinas, mas transformar picos solares em energia com 'timing' preciso. Isso envolve linhas de transmissão modernas, baterias em escala e soluções como armazenamento por bombeamento — investimentos que demandam tempo, capital e, possivelmente, tecnologia estrangeira, incluindo parcerias com a China.

A leitura política é direta: a Índia ganhou condição de protagonista em geração limpa, mas a incapacidade de converter essa geração em eletricidade confiável amplia riscos econômicos e políticos. Se o país não acelerar a modernização da rede e o armazenamento, as quedas de oferta em momentos críticos continuarão a custar caro à indústria, à população e à narrativa de independência energética.