Até pouco tempo atrás, Michal Strnad era um executivo discreto que tocava a empresa fundada pelo pai. Em poucas semanas, porém, o IPO da Czechoslovak Group (CSG) — avaliada em cerca de €25 bilhões — o colocou no topo da lista de bilionários da República Tcheca. A transformação é rápida: receita de €6,7 bilhões no ano passado, um salto de cerca de 12 vezes em relação a 2021, 14 mil funcionários e mais de 30 unidades de produção. Quatro quintos desse faturamento vêm do setor de defesa, posicionando a CSG entre as maiores fabricantes de armamentos da Europa e como a segunda maior fabricante de munição no continente, atrás apenas da Rheinmetall.
O motor desse crescimento é claro: a guerra na Ucrânia. A CSG participou da iniciativa tcheca de munição, ligada ao esforço europeu e financiada por aliados, e reportou vendas diretas à Ucrânia que responderam por 27% do total no ano passado. Além disso, a demanda pela reposição de estoques europeus impulsionou ordens bilionárias — entre elas um contrato de até €58 bilhões com a Eslováquia para abastecer membros da União Europeia. Ao mesmo tempo, a empresa acelerou compras estratégicas (participação majoritária na italiana Fiocchi em 2022, aquisição da americana Kinetic em 2024 e a compra de 49% da austríaca Hirtenberger), numa aposta clara de consolidação internacional.
A estratégia de Strnad combina vantagens competitivas claras — custos salariais menores na República Tcheca e Eslováquia, integração vertical e joint ventures para insumos como TNT — com uma postura agressiva de aquisições. Mas esse crescimento traz riscos relevantes. A dependência de um pico de demanda ligado a um conflito em curso expõe a empresa a um cenário de retração se as operações fossem reduzidas; concorrentes emergentes, como a vencedora Helsing no setor de drones, podem redistribuir orçamentos de defesa; e a concentração de capacidade produtiva em torno de um ator privado levanta questões sobre resiliência e governança industrial no seio da União Europeia.
No plano interno, a ascensão da CSG também muda o tabuleiro político e social na República Tcheca. A empresa passou a patrocinar a equipe olímpica e Strnad comprou o clube de futebol Viktoria Plzen — movimentos que ampliam seu perfil público e podem traduzir capital econômico em influência simbólica. Para governos e Bruxelas, o desafio é equacionar a necessidade urgente de munição e equipamentos com a dependência crescente de fornecedores privados em processo de concentração. A história recente da CSG mostra ganhos industriais e empregos, mas também impõe um debate sobre transparência de contratos, diversificação de fornecedores e os custos de uma indústria de defesa moldada por um ciclo de guerra.