Byung‑Chul Han parte de uma fórmula provocadora: «Deus não está morto. Está morto o ser humano ao qual Deus se revelava». Em 'Falando sobre Deus', fruto de um diálogo com o pensamento de Simone Weil, o filósofo sul‑coreano radicado na Alemanha argumenta que não foi o divino que desapareceu, mas a capacidade humana de atenção profunda — a condição para qualquer contato com o sagrado. Para Han, experiência religiosa exige espera, escuta e silêncio; qualidades hoje corroídas pela lógica do imediatismo.

A digitalização é apontada como um obstáculo estrutural. A tela, diz o autor, não funciona como um vitral que deixa passar a luz divina, mas como um espelho que devolve apenas o humano; o ambiente virtual fecha o indivíduo ao mistério. Han descreve o «curral digital» onde algoritmos alimentam vícios de emoção efêmera e fornecem um fluxo constante de informações superficiais. Assim, práticas de contemplação e silêncio viram técnicas de otimização — programas para reduzir stress ou aumentar produtividade — e a espiritualidade se esvazia em autorrealização instrumental.

As implicações ultrapassam a esfera religiosa. A atrofia da atenção prejudica a capacidade de reflexão prolongada, dela dependem a educação, o debate público e a tomada de decisões complexas. Quando a vida coletiva passa a privilegiar o estímulo rápido, perde‑se também a paciência para o diálogo demorado, para a escuta do outro e para a ponderação pública. Do ponto de vista social e institucional, trata‑se de um problema que afeta a qualidade do debate democrático e a formação de cidadania, além do bem‑estar individual.

Han não faz apelo explicitamente nostálgico ou clerical; sua crítica é antropológica e prática: sem silêncio e atenção, desaparece a condição de experiência do sagrado e empobrece a interioridade humana. O diagnóstico — e a imagem contundente do epitáfio digital que substitui o mistério pela autocomprovação — funciona como um alerta cultural. Restará às pessoas e às instituições decidir se preservam espaços de atenção necessária para a contemplação ou se se resignam a uma existência sempre pronta para o próximo estímulo.