Um dia após a prorrogação por três semanas do cessar‑fogo entre Líbano e Israel, o Hezbollah afirmou nesta sexta (24) que a trégua "não tem sentido" diante das agressões israelenses. O Exército de Israel emitiu ordem de evacuação para cidade no sul do Líbano, onde tropas israelenses permanecem ocupando uma faixa de 5 a 10 km ao longo da fronteira. Segundo comunicado do grupo, seis combatentes do Hezbollah foram mortos em ofensiva e um míssil do grupo teria derrubado um drone israelense; o Ministério da Saúde do Líbano reportou ao menos duas mortes entre civis.

Os confrontos recentes já haviam registrado, na quarta, ao menos cinco mortos — entre eles a jornalista Amal Khalil —, dia considerado o mais letal desde o início da trégua em 16 de abril. O deputado Ali Fayyad, do Hezbollah, afirmou que "o cessar‑fogo não tem sentido diante da insistência de Israel em atos hostis, como assassinatos, bombardeios e disparos" e pediu que o governo libanês reveja negociações diretas com Tel Aviv. Do lado israelense, o premiê Binyamin Netanyahu acusou o grupo de tentar sabotar os esforços para um acordo: "Começamos um processo para alcançar uma paz histórica entre Israel e o Líbano, e está claro para nós que o Hezbollah está tentando sabotar isso".

o cessar-fogo não tem sentido diante da insistência de Israel em atos hostis, como assassinatos, bombardeios e disparos

A mediação americana, anunciada por Donald Trump ao estender a trégua e prometer apoio a Beirute contra o Hezbollah, enfrenta um teste de credibilidade: ataques continuados durante a trégua colocam em xeque tanto a eficácia do acordo quanto a capacidade dos mediadores de conter a escalada. O escritório de direitos humanos da ONU já advertiu que ofensivas contra áreas residenciais podem "constituir graves violações" do direito internacional, citando um ataque em 8 de março que matou ao menos 13 civis em Sir el‑Gharbiyeh. A multiplicação de incidentes expõe contradições entre a narrativa oficial de pacificação e a realidade no terreno.

O quadro político e humanitário tende a se agravar: para o Líbano, as mortes de civis e ataques a jornalistas aumentam a pressão sobre um Estado fragilizado e sobre negociações internas para desarmar o Hezbollah; para Israel, a permanência de forças em território libanês e as ofensivas durante a trégua podem cobrar preço político e legal em fóruns internacionais. Em suma, a prorrogação do cessar‑fogo revela‑se, por ora, mais como um retrato do momento do que como garantia de paz — e acende alerta sobre o risco de retorno da violência plena na fronteira.