Um amplo levantamento publicado em 4 deste mês na revista PNAS Nexus conclui que, ao longo de pelo menos 10 mil anos, homens europeus tendiam a consumir mais proteína de origem animal do que mulheres. A conclusão vem da análise de razões isotópicas em mais de 12 mil esqueletos coletados em quase 400 sítios, que cobrem do fim da Era do Gelo até o presente.
Os pesquisadores — liderados por Rozenn Colleter e Michael Richards — examinaram sinais de nitrogênio-15 e carbono-13, indicadores conhecidos do consumo de proteína animal e de certas plantas. Para reduzir viéses ambientais, compararam os 10% com valores isotópicos mais altos e os 10% mais baixos dentro de cada período. O padrão aparece com consistência: homens predominam nos 10% superiores em todos os intervalos cronológicos avaliados.
A amostragem é significativa: os períodos com maior número de esqueletos incluem o começo da Idade Média (500–1000 d.C.) com 3.591 indivíduos, a Antiguidade (800 a.C.–476 d.C.) com 1.939 e a Alta Idade Média (1000–1300 d.C.) com 1.733. A cobertura geográfica vai de Portugal à Rússia, incluindo também pontos comparativos na Turquia e em territórios do Levante.
O estudo não atribui uma causa única ao padrão, e os autores reconhecem fatores capazes de confundir resultados, como consumo de pescado ou práticas agrícolas locais. Ainda assim, a constância da diferença entre os sexos sugere que o acesso privilegiado a alimentos ricos em proteína — e, por extensão, a recursos simbólicos e nutricionais — foi uma característica recorrente em muitas sociedades europeias.
Para além do interesse arqueológico, os achados oferecem subsídios para debates contemporâneos sobre desigualdade e divisão de recursos por gênero: tratam-se de indícios de longo prazo, não de provas de mecanismos sociais específicos, mas reforçam a ideia de que disparidades alimentares e de status podem ter raízes históricas profundas.