Com mais de 98% das urnas apuradas na votação de domingo (12), os húngaros terão um novo primeiro‑ministro. O partido de centro‑direita liderado por Péter Magyar (Tisza) deve conquistar 138 das 199 cadeiras do Parlamento, resultado que, se confirmado, encerra 16 anos de domínio do Fidesz e obriga a uma revisão imediata da imagem da Hungria perante a União Europeia e parceiros atlânticos.
A trajetória de Viktor Orbán ao longo dos últimos anos deixou um rastro institucional claro: reformas constitucionais, alterações na estrutura do Judiciário e um forte redesenho do mapa eleitoral que reduziram contrapesos e facilitaram a perpetuação no poder. Paralelamente, o alargamento do controle sobre mídias e órgãos públicos criou um ecossistema favorável ao governo, ao mesmo tempo em que fragilizou a independência de instituições centrais do Estado.
No campo econômico e administrativo, o modelo adotado concentrou favores e mercados em torno de conglomerados próximos ao Executivo, abrindo espaço para práticas clientelistas e aumentando a percepção de conflito entre interesse público e privado. Na política externa, a simpatia de Orbán por líderes antagônicos à linha europeia, inclusive no que tange ao relacionamento com Moscou, contribuiu para o isolamento do país dentro do bloco e para o bloqueio de pagamentos europeus — cerca de €19 bilhões deixaram de ser liberados como resposta às preocupações sobre o Estado de direito.
A vitória oposicionista traz duas tarefas imediatas e inescapáveis. A primeira é interna: desconstruir os instrumentos legais e administrativos que permitiram a captura do Estado e recompor freios e contrapesos capazes de garantir independência judicial e liberdade de imprensa. A segunda é externa: recompor a confiança da UE e demonstrar medidas concretas para desbloquear recursos e recuperar o espaço diplomático, o que exigirá ações mais rápidas do que sinalizações retóricas.
A mudança em Budapeste tem efeito simbólico e prático. Para a oposição ao populismo no continente, é uma sinalização de que projetos de poder personalista podem ser revertidos nas urnas. Para o novo governo, porém, a legitimidade eleitoral vem acompanhada do custo político de transformar diagnósticos em reformas palpáveis. A transição será o melhor termômetro para medir se a Hungria será capaz de recuperar a normalidade institucional ou apenas trocar de rosto mantendo velhos mecanismos de captura.