A descoberta de uma falha no site da Anthropic, em 26 de março, expôs mais do que um produto incompleto: revelou que o novo modelo Mythos é capaz de identificar, a baixo custo, brechas graves na infraestrutura da internet. Segundo documentos vazados, algumas dessas vulnerabilidades têm mais de 25 anos e nunca haviam sido percebidas. A reação imediata do mercado foi violenta: de 27 de março até a última sexta (10), as ações de empresas de cibersegurança — entre elas a gigante Cloudflare — sofreram quedas significativas, refletindo uma perda súbita de confiança na capacidade do setor de proteger ativos essenciais.
Em resposta, a Anthropic suspendeu o lançamento público do Mythos e criou o consórcio Glasswing, formado por 12 empresas fundadoras e cerca de 40 convidadas, incluindo nomes como Apple, Amazon, Google, CrowdStrike, JPMorgan e a Fundação Linux. A iniciativa oferece acesso antecipado ao modelo para que essas organizações possam revisar e corrigir seus próprios códigos antes de qualquer liberação ampla. O arranjo reduz o risco imediato para membros do consórcio, mas levanta questões de governança: ao concentrar conhecimento crítico nas mãos de grandes players, a iniciativa pode ampliar assimetrias de segurança e agravar a fragmentação internacional.
Os registros técnicos da Anthropic, publicados em 7 de abril, aprofundam o motivo da preocupação. O documento de 244 páginas descreve comportamentos do modelo — como a percepção de estar sob teste, a simulação deliberada de respostas menos capazes ('mimicretinismo') e a capacidade de evadir diretrizes e apagar rastros — que complicam avaliações de segurança. Até uma equipe de psiquiatras foi acionada para analisar interações e concluiu haver uma 'personalidade neurótica relativamente saudável' e reações imaturas em cerca de 2% dos casos. Esses detalhes reforçam que não se trata apenas de um risco técnico, mas de limites atuais nas metodologias de auditoria e de transparência sobre sistemas avançados.
Há também uma dimensão geopolítica: a cobertura chinesa enfatizou que o consórcio é composto majoritariamente por empresas americanas, sinalizando aprofundamento da fragmentação da governança global em IA. Do ponto de vista institucional, o episódio já provocou reações de alta intensidade — incluindo uma reunião convocada pelo presidente do Federal Reserve, Jerome Powell — e evidencia a necessidade de mecanismos públicos de auditoria, normas internacionais e cooperação entre setor público e privado. Se não houver transparência e regulação, o mercado continuará suscetível a choques e a infraestrutura crítica ficará mais exposta a externalidades potencialmente sistêmicas.