Um estudo recente da Demografia Médica revela um fosso entre capitais e interior: em 2024 as capitais tinham 6,97 médicos por mil habitantes, contra 1,9 no interior, e a diferença é ainda maior entre especialistas. O resultado prático é visível nas rotinas de quem envelhece longe dos centros urbanos: consultas, exames e procedimentos que exigem deslocamento oneroso e adiamentos de tratamento.
Relatos de pacientes ilustram a desigualdade. Em Joaquim Egídio, próximo a Campinas, Eronildes, 64 anos, convive com limitação de movimento no ombro e aguarda há anos por cirurgia no SUS. No interior do Amazonas, Maria da Silva viaja por mais de 12 horas até Manaus para quimioterapia, com gastos que chegam a centenas de reais por ida. Em comunidades periféricas de Salvador, idosas organizam viagens de madrugada e desembolsam valores altos por consultas especializadas.
Profissionais apontam causas claras: concentração de especialistas nas capitais, escassez de médicos de família nas unidades básicas e uma rede de atenção primária frágil que obriga encaminamentos longos. Supervisores de programas de saúde afirmam que, muitas vezes, o atendimento especializado só existe em centros maiores, tornando inviável a continuidade do cuidado para quem depende de transporte público, apoio familiar ou da própria prefeitura.
A desigualdade territorial na oferta médica tem efeito político e fiscal. Além do impacto humano — atraso de tratamentos, aumento de custos pessoais e maior desgaste para a família —, a centralização pressiona hospitais das capitais e exige políticas públicas mais objetivas: fixação de profissionais no interior, reforço da atenção primária, incentivos para especialidades e soluções logísticas que reduzam deslocamentos. Sem medidas, a diferença tende a aprofundar a vulnerabilidade dos idosos e a gerar custo maior para o sistema público.