O Museu de Arte Contemporânea da USP abriu ao público 'Insurgências - Vanguarda Feminista da Década de 1970', exposição que reúne 60 obras da coleção austríaca Verbund. A mostra chega em sequência a iniciativas brasileiras recentes que releram a história da arte sob a ótica de gênero — como 'Mulheres Radicais' (Pinacoteca, 2018) e 'Histórias das Mulheres' (Masp, 2019) — e amplia o repertório ao trazer peças pouco ou nunca exibidas por aqui.
O recorte privilegia trabalhos em que o corpo é instrumento de crítica e de performance. Marcella Campagnano, por exemplo, fotografou-se em autorretratos que encenam arquétipos femininos difundidos pela cultura de massa. Renate Bertlmann performou como uma noiva grotesca, usando bicos de mamadeira como elementos provocadores; Valie Export expôs contradições sobre consentimento em iniciativas públicas, além de produzir colagens que subvertem imagens sacras ao ligar maternidade e objetos domésticos. Também estão presentes autorretratos em preto e branco de Francesca Woodman e pinturas de Emma Amos, que questionam quem tem acesso a espaços de lazer e representação.
A coleção Verbund foi montada a partir de 2004, quando a curadora Gabriele Schor buscou trabalhos que ela classificou como parte da 'vanguarda feminista' dos anos 1970. Para o conjunto no MAC-USP, a curadoria local, representada por Ana Magalhães, priorizou nomes pouco exibidos no Brasil e obras de artistas de países europeus e do Leste — territórios cujo século 20 conturbado influenciou trajetórias artísticas e diálogos com política e gênero.
Além do valor histórico, a exposição pressiona o público contemporâneo a revisitar debates sobre papéis de gênero, consentimento e trabalho reprodutivo. Ao reaproximar o acervo europeu de um público brasileiro, 'Insurgências' complementa a busca por uma história da arte menos centrada e estimula perguntas ainda atuais: que corpos foram invisibilizados e que estratégias artísticas foram usadas para romper rotinas sociais? A mostra não responde todas as questões, mas amplia o repertório crítico disponível ao espectador.