O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez neste sábado em Barcelona uma crítica dura ao funcionamento do Conselho de Segurança da ONU, afirmando que os membros permanentes deixaram de cumprir a função para a qual a instituição foi criada após a Segunda Guerra Mundial. Para Lula, o órgão perdeu capacidade de representar e mediar conflitos, em parte pelo exercício do poder pelos cinco países com assento permanente.
No discurso, o presidente listou exemplos de intervenções e decisões unilaterais que, na avaliação dele, escaparam ao papel da ONU: a invasão do Iraque por iniciativa de Washington, a ofensiva russa na Ucrânia, atos atribuídos a governos como o de Donald Trump contra Irã e Venezuela, além das ações da França e do Reino Unido na Líbia e das operações de Israel na Faixa de Gaza — embora a intervenção na Líbia tenha contado com autorização do próprio Conselho. Lula também criticou a prática de muitos titulares de cargos não comparecerem pessoalmente às reuniões, remetendo apenas embaixadores, e questionou a eficácia do direito de veto e a baixa representatividade de África, América Latina e Índia.
O tema foi abordado no Fórum Democracia Sempre, encontro criado por líderes de esquerda que reuniu cerca de 20 participantes em Barcelona — entre eles os presidentes Gustavo Petro (Colômbia) e Yamandú Orsi (Uruguai), a ex-presidente chilena e convidada Michelle Bachelet, a mexicana Claudia Sheinbaum, o premiê espanhol Pedro Sánchez e o sul-africano Cyril Ramaphosa, além de vice-líderes europeus e representantes da ONU. Lula defendeu que a reforma da ONU seja colocada em pauta e disse que questões globais como a regulação das redes sociais deveriam ser debatidas no âmbito das Nações Unidas.
A posição brasileira, que inclui buscar apoio para a eventual candidatura de Michelle Bachelet à Secretaria-Geral em 2027, lança um alerta diplomático: ao expor publicamente as fragilidades da arquitetura pós‑1945, o governo tenta pressionar por mudanças institucionais, mas enfrenta o desafio óbvio de convencer justamente os Estados que detêm o poder de veto. A crítica de Lula amplia o debate sobre representatividade e eficácia do sistema multilateral e pode intensificar a agenda de reformas liderada por países do Sul, sem, contudo, oferecer caminho fácil para alterar um mecanismo que depende do anuência dos próprios atores contestados.